André Villas-Boas concedeu entrevista (OJOGO/JN/TSF), onde, para além de falar da rivalidade com o Sporting, também lembrou o antigo líder e o antigo treinador dos dragões.
André Villas-Boas: “Tenho honrado o passado de Pinto da Costa”
A entrada do André Villas-Boas no FC Porto marca uma cisão com o passado. E essa relação com o passado continua a ter alguns focos de tensão, pensando aqui no enorme peso histórico de Pinto da Costa. Com estão as relações com a família do ex-presidente e as pontes que sempre foi procurando fazer?
-Sim, tentaram cortar pontes… A presença da família de Pinto da Costa é um motivo de aproximação ao nome Pinto da Costa e ao seu legado, um legado familiar, evidentemente. Claro que há uma coisa em que FC Porto não se mete, que são as disputas que têm a ver com essa família. O que nos une é Jorge Nuno Pinto da Costa e é Jorge Nuno Pinto da Costa que une todos os portistas. Portanto, tudo o que sucede relativamente à família são homenagens e sobretudo um direito que os assiste de viver a glória que o seu pai atingiu no FC Porto. Agora, o clube tem de estar alheio a tudo o que são as problemáticas familiares. Nesse campo não nos metemos. Convidamos com simpatia a família sempre que há algum evento que achamos que seja importante, relacionado não só com a história de Jorge Nuno Pinto da Costa, mas também com a história do FC Porto, desde logo vencer títulos.
Guarda algum tipo de mágoa por essa pacificação não ter sido completa? E acha, por outro lado, que o universo portista já está pacificado com essa memória e com esse legado de Jorge Nuno Pinto da Costa?
-Eu não tenho feito outra coisa que seja honrar o passado de Jorge Nuno Pinto da Costa. É uma obrigação e uma responsabilidade enorme que eu tenho de ter. Tivemos uma afluência histórica ao seu memorial e essa afluência histórica é o cordão umbilical dos portistas com o presidente dos presidentes. Portanto, a minha maior responsabilidade é continuar a elevar e honrar o seu bom nome.
Para fecharmos este capítulo, consegue identificar a melhor memória que tem com Pinto da Costa?
-Voltar a 2010/2011, comigo a treinador principal, uma época histórica onde tudo correu tão bem que a nossa relação foi perfeita, mas há vários momentos onde me cruzo com ele, desde logo enquanto Robsonzinho, o “estatístico” de Bobby Robson. Era assim que me tratava com carinho. Uma mais marcante terá sido a chamada que tive com ele, que confirmava a intenção de que eu fosse treinador do FC Porto. Acho que essa tem uma enorme profundidade porque é o sentido da honra da palavra, o sentido do expoente máximo representativo do FC Porto.
O FC Porto não tem equipas de modalidades femininas no andebol, basquetebol e hóquei em patins, ao contrário dos rivais. É possível vir a ter até ao final do seu mandato?
-No feminino, é difícil. Temos a nossa sustentabilidade económica controlada, mas urgente na mesma, principalmente relativamente a fluxos de caixa. Ter mais equipas femininas implica custos maiores, que têm de ser controlados. Do meu programa eleitoral, falta-me cumprir uma promessa: a confirmação da criação da Fundação FC Porto, que aguardamos que juridicamente esteja totalmente resolvida. Com a Fundação vem o atletismo amador e o regresso ao atletismo em várias vertentes, mas também o regresso do voleibol masculino, que até à data penso que é uma das modalidades mais vencedoras da história do clube. O futsal é o próximo passo. Está lançado na terceira divisão, com potencial para crescer. Agora, pedimos aos sócios alguma tolerância, porque o nível a que estão os nossos rivais é altíssimo, desde logo, participam nas competições europeias, pelo que há um “gap” e uma margem enorme até chegarmos ao topo e podermos ambicionar conquistar o título na primeira divisão. É para ser gradual e um projeto formativo. O lançamento de mais modalidades femininas é outro desafio que tem de estar relacionado intimamente com o lançamento do pavilhão em Ramalho Ortigão.
Em que ponto está esse processo?
-Há um direito de superfície que foi dado ao FC Porto nos próximos 75 anos para lançar um novo pavilhão. Para pensarmos em modalidades femininas, temos de ter uma nova casa. A nova casa tem um sítio, que é esse, mas é preciso arranjar os meios de financiamento para o construir e depois, a longo prazo, potencialmente, esperemos, no segundo mandato, lançar esse desafio de crescer na diversidade, que é uma obrigação e uma responsabilidade social do FC Porto.
André Villas-Boas: “Gostava de receber Sérgio Conceição num estádio cheio”
O Sérgio Conceição deu-lhes parabéns depois deste título de futebol?
-Deu os parabéns ao FC Porto, como tinha de ser. Percebendo a vossa entrada no lado que nos relaciona com o Sérgio, quero lembrar que ele também construiu este museu onde nos encontramos. É dos treinadores mais vitoriosos de sempre da história do FC Porto, em número de títulos, e é alguém que está intimamente relacionado com o clube. Eu disse ao próprio que não queria que lhe acontecesse o que aconteceu comigo, que foi um distanciamento da instituição para com o treinador André Villas-Boas, provavelmente fruto das ambições de destino de vida do André Villas-Boas, sócio do FC Porto. A verdade é que aconteceu muito por conta do FC Porto ter escolhido um seu anterior adjunto [Vítor Bruno] como futuro treinador principal e na cabeça do treinador Sérgio Conceição essas coisas estão relacionadas no campo emocional com as lealdades e as traições, provavelmente o atraiçoaram de uma forma que ele pensa que é desonesta, mas que é honesta em todos os sentidos. O FC Porto tinha de ser livre nas suas escolhas, era o que mais faltava se não fosse. No entanto, eu gostava muito de receber o Sérgio Conceição no centro do relvado.
É um convite?
-É um convite, que o próprio não irá aceitar. Recebê-lo num estádio cheio. Seguramente não aceitará comigo na presidência do FC Porto. De estádio cheio, adeptos de pé, a aplaudir um treinador histórico. Esse é o reconhecimento que ele merece. E acho que é algo que já distinguiu esta presidência relativamente ao José Mourinho e relativamente ao Vítor Pereira. Gostava muito que o Sérgio tivesse esse momento, tal como o Pepe. Se os próprios entendem que com esta presidência é impossível, é um problema que lhes corresponde e ao qual eu sou completamente alheio. O meu desejo é esse. Gostava que tivéssemos essa oportunidade.
André Villas-Boas: “Abordagem ao mercado será diferente”
O FC Porto, no ano passado, fez o maior investimento da história, ao gastar 100 milhões de euros em reforços. Este ano vai gastar tanto como no ano anterior?
-Foi uma revolução necessária, uma injeção clara de talento e uma aposta que o FC Porto precisava de ter. O nosso primeiro desafio, como vocês bem sabem, foi a realidade económica, época 24/25, que nos permitiu um encaixe financeiro também considerável, mas que nos obrigava de novo a refazer a equipa para a época de 25/26 e reinvestir no talento da equipa. Portanto, foi um mercado histórico, sem paralelo na história do clube, mas absolutamente necessário para quem queria ser candidato ao título. Acho que se tivéssemos chegado ao fim da época 25/26 e o FC Porto não tivesse sido campeão nacional, é porque não tinha feito bem o seu trabalho ao nível de renovação e investimento no plantel. Portanto, uma revolução profunda, mas absolutamente necessária, que nos dá agora bases para atacar o mercado de outra forma. É importante ter consciência de que a realidade económica do FC Porto não está totalmente resolvida. Claro que a sua dívida foi prolongada a longo prazo, digamos assim, mas temos responsabilidades financeiras. Temos sempre uma responsabilidade financeira enorme da qual não podemos escapar. Neste momento, trabalhamos a partir de outra base, uma base que não tínhamos no ano passado. Uma base boa, em que queremos manter os melhores talentos na equipa principal e reforçá-la em pontos estratégicos identificados pelo treinador. Não irá ser um mercado de 100 milhões, claro está, porque estas bases nos permitem olhar para o mercado de uma forma diferente e também muito mais ponderada.
E nessa perspetiva consegue garantir também a permanência desses principais jogadores ou está sempre sujeito aos interesses do mercado?
-Sim, sempre sujeito aos interesses do mercado, que neste momento se comporta de uma forma muito específica, também pelo acontecimento do Mundial. O FC Porto, para ser competitivo, tem de tentar manter a sua base. É claro que os clubes portugueses têm necessidade imediata de tesouraria e de caixa, porque têm de fazer face aos seus compromissos e ter fluxos de caixa suficientes que façam face a esses compromissos, desde logo os salários e pagamentos a clubes, pagamentos também de transferências anteriormente feitas. E é por isso que somos sempre obrigados a mexer o mercado. Nesta fase não temos nada em concreto pelos nossos jogadores, o que nos dá uma base boa e proteção, mas temos de ter consciência de que é preciso criar esses fluxos de caixa para nos mantermos sustentáveis durante a época, do ponto de vista das nossas obrigações.
Há algum alvo preferencial que o FC Porto tenha identificado em termos de contratações?
-Sim, muitos alvos, muitos deles referenciados. Acho que sobretudo o mercado desta fase, o mercado de junho e julho, é o mercado mais caro e é onde a maior parte dos clubes se protege relativamente aos seus ativos e pede quantias mais avultadas. Este é um mercado que normalmente se promove mais tarde. Por conta das entradas de novos treinadores, por conta dos inícios das pré-épocas, por conta também dos inícios das escolhas desses próprios treinadores, por conta das necessidades de fluxos de caixa de outros clubes. Portanto, diria que é um mercado que se agitará em agosto, nas semanas finais de agosto, onde os clubes têm necessidades imediatas mais prementes e então ativam-se no mercado de outra forma. Isto às vezes é limitativo dos ideais de um treinador que normalmente quer começar uma pré-época com um plantel totalmente disponível e já totalmente feito. No entanto, também não podemos deixar de pensar na forma como atuamos no início desta época, 25/26, e ter em consideração que alguns jogadores do FC Porto também chegaram mais tarde, desde logo o Kiwior, que chegou no último dia da janela de transferências.
Olhando para esse equilíbrio do plantel, há setores da equipa que o preocupam mais? A defesa, o meio-campo, o ataque?…
-O que marcou a época foi a lesão dos seus dois pontas-de-lança mais distintivos. Um representa a maior transferência de sempre feita por um clube português, que é o Samu; e no outro caso, o de Luuk de Jong, a transferência surpresa dos Países Baixos para o campeonato português de um jogador referência do futebol europeu. Portanto, essas lesões limitaram o FC Porto, obrigaram-nos a ir ao mercado em antecipação com a chegada do Terem Moffi. Neste momento, temos projetado o Samu para estar em pleno das suas capacidades físicas e desportivas para inícios/meados de novembro. Há uma série de responsabilidades de calendário nacional e calendário europeu para os quais o FC Porto, neste momento, tem apenas duas opções, o André Silva e o DeniszGul.
É aí que aparece o Lewandowski…
-É aí que aparece o Lewandowski fabricado pelos sonhos dos adeptos…
E não entrou aí também o sonho do presidente?
-Partir do pressuposto de que, por termos três polacos, isso seria suficiente para convencer um dos melhores jogadores do Mundo e um dos jogadores mais caros, em termos salariais, e que, tanto quanto sei, está hoje [sexta-feira] mesmo a assinar pelo Chicago Fire…
Está fora, portanto…
-Sim, sempre esteve fora. É sempre bom sonhar com grandes chegadas. O que não podemos ter é delírios que impeçam a sustentabilidade financeira do clube.











