Treinador romeno recorda no podcast «Vorbitorincii» os anos no Sporting, admite problemas de cocaína de Jardel e conta episódios em que o avançado foi retirado do onze após testes internos
Revelações duras sobre o avançado que marcou 55 golos numa época
László Bölöni, treinador campeão pelo Sporting em 2001/02, abriu o livro sobre Mário Jardel numa entrevista ao podcast romeno «Vorbitorincii» e fez declarações fortes sobre os bastidores da passagem do goleador brasileiro por Alvalade. O técnico confirmou os problemas de droga do antigo avançado, falou de testes internos que o teriam afastado de vários jogos e classificou Jardel como «o jogador mais difícil» que treinou.
«Perder o Mário Jardel na minha segunda temporada no Sporting foi uma grande derrota para mim. Tinha marcado mais de 40 golos na primeira época, na segunda ficou em seis», recordou Bölöni, sublinhando o impacto da queda abrupta de rendimento do antigo Bota de Ouro.
“Escrevia o onze e o médico dizia que não podia jogar”
O treinador romeno descreveu um cenário repetido no balneário leonino, em que os planos técnicos esbarravam na realidade clínica.
«O jogador mais difícil de treinar, e com quem tive mais problemas, foi o Jardel. Os pais eram alcoólicos, esse era o problema», começou por explicar. «Eu escrevia a equipa na placa, à frente dos jogadores, colocava o Jardel no onze inicial e o médico indicava que não era possível, porque o Jardel tinha…», disse, passando os dedos pelo nariz, num gesto associado ao consumo de cocaína.
Segundo Bölöni, nesses momentos o avançado era submetido a testes internos antes de poder ser autorizado a jogar. «Faziam-lhe a análise para ver se o médico podia autorizá-lo a jogar, e dava positivo», revelou, associando diretamente esses resultados ao afastamento do goleador de vários encontros em 2002/03.
O técnico afirma que Jardel terá falhado 15 dos 34 jogos dessa Liga devido a estes problemas, numa época em que passou de 55 golos na temporada anterior para um registo muito mais modesto.
Jardel já tinha admitido adição à cocaína
As revelações de Bölöni surgem num contexto em que o próprio Jardel já tinha tornado público o seu passado com a droga. Em 2008, o ex-avançado, que brilhou por clubes como FC Porto, Sporting e Galatasaray e conquistou duas Botas de Ouro europeias, admitiu a sua adição à cocaína.
Mais recentemente, em 2019, explicou como tudo começou: «Entrei nesse mundo da droga por curiosidade quando jogava em clubes da Europa. Conheci algumas pessoas e ofereceram-me. Passei a consumir com regularidade quando estava de férias, porque durante a competição havia controlos antidoping», contou, assumindo que o dinheiro, as más companhias e as tentações foram fatores decisivos na queda.
Apesar das declarações de Bölöni sobre testes positivos, Luís Horta, ex-diretor do laboratório de análises do Conselho Nacional Antidopagem, já esclareceu publicamente que Mário Jardel nunca acusou positivo em controlos oficiais enquanto representou FC Porto e Sporting. Ou seja, o que o romeno descreve diz respeito a testes internos de monitorização clínica, não a processos oficiais de dopagem.
“Trabalhei horas extra para o tentar salvar”
Na entrevista, Bölöni também revela que tentou, de forma quase pessoal, resgatar Jardel do ciclo de autodestruição. O técnico recorda uma proposta feita ao avançado para o isolar e recuperar em ambiente controlado.
«Disse-lhe: “Olha, vou levar-te para o centro de treinos comigo. Vamos ficar fechados lá, eu no meu quarto e tu no teu. Falamos, comemos, treinamos, corremos”», contou. «Ele aceitou. Fiquei com as chaves do carro, dormi com ele no centro de treinos. Trabalhei horas extra nessa segunda época.»
Bölöni relata que manteve contacto com a família do jogador, ligando para o Brasil e conversando com a esposa, Karen, e com a filha, numa tentativa de criar uma rede de apoio. O plano, porém, acabou por ruir.
«Depois de seis dias disse-me: “Não me sinto bem, tenho de ir embora um tempo, mas volto”. Eu respondi: “Mário, conheço-te. Não vais a lado nenhum. Vamos sair, correr, treinar”. Ele insistiu: “Sim, sim, mas volto”», recordou. «Fez um telefonema, chegou um táxi e desapareceu. Sabia que não ia voltar. No dia seguinte apareceu, mas o médico começou logo a fazer-me sinais…», concluiu, sugerindo que a recaída foi praticamente imediata.
Entre a glória dos golos e o peso da queda
Mário Jardel foi um dos avançados mais letais do futebol mundial entre finais dos anos 90 e início dos 2000. Brilhou no FC Porto, onde se tornou goleador temido na Europa, e explodiu também no Sporting, com 55 golos numa só época, ajudando à conquista do título em 2001/02.
A carreira, no entanto, entrou em declínio acentuado a partir daí, marcada por problemas pessoais, episódios de depressão e o consumo de cocaína que o próprio viria a admitir. As declarações de László Bölöni surgem como mais uma peça na reconstrução dessa história, revelando a dimensão interna do drama que se vivia no balneário de Alvalade.
O técnico romeno garante, ainda assim, que fez tudo o que estava ao seu alcance. «Era um treinador jovem, esforcei-me muito. Estou tranquilo, fiz aquilo que considerei correto», afirmou na mesma entrevista.
Entre a memória do goleador implacável e o peso do vício que lhe minou a carreira, o legado de Mário Jardel continua a ser uma das histórias mais intensas e contraditórias do futebol recente em Portugal.











