O mundo do ciclismo chora a partida de uma das suas figuras mais carismáticas e indomáveis. Michele Dancelli faleceu hoje, aos 83 anos, numa casa de repouso em Castenedolo, a sua terra natal.
O antigo campeão, que nasceu a 15 de outubro de 1942, partiu pouco depois de ter recebido o “Óscar das Velhas Glórias”, fechando o ciclo de uma vida dedicada à estrada. Profissional entre 1963 e 1974, Dancelli foi um “operário” do ciclismo — literalmente, pois trabalhava como trolha antes de o amor pelas bicicletas mudar o seu destino.
O épico de 1970: 70 quilómetros a solo
A maior página da sua história foi escrita a 19 de março de 1970. Itália vivia sob um “feitiço”: desde 1953 que nenhum transalpino vencia a Milão-San Remo, a mítica Classicissima. Numa era dominada pelos sprinters flamengos e pelo “Canibal” Eddy Merckx, Dancelli, com a camisola da Molteni, assinou um golpe de mestre.
Atacou em Loano, a 70 quilómetros da meta, e voou sozinho pela Via Aurelia e pelo Poggio. Cruzou a Via Roma com 1’39” de vantagem sobre a concorrência, lavada em lágrimas perante as câmaras de TV. “Não acreditavam que eu era um campeão”, desabafou na altura. O jejum de 17 anos que ele quebrou continua a ser, até hoje, o mais longo da história da prova.
O nascimento do “Ás de Paus” da Colnago
O triunfo de Dancelli teve um impacto que ultrapassou o asfalto. O italiano venceu montado numa bicicleta fabricada por Ernesto Colnago, que era então o mecânico da Molteni. Nessa mesma noite, durante um jantar para celebrar a vitória, surgiu a ideia de criar o símbolo do Ás de Paus (Asso di Fiori) para identificar as bicicletas Colnago, imagem que se tornou icónica e perdura até aos dias de hoje.
Uma carreira de luxo na “Era de Ouro”
Michele Dancelli não foi apenas um homem de um só dia. Numa das épocas mais competitivas do ciclismo, onde enfrentou gigantes como Merckx, Gimondi e De Vlaeminck, somou 73 vitórias, incluindo:
- 11 etapas no Giro d’Italia (vestindo a Maglia Rosa durante 14 dias);
- Duas medalhas de bronze em Campeonatos do Mundo (1968 e 1969);
- Vitória na Flèche Wallonne (1966);
- Uma etapa no Tour de France (1969);
- Dois títulos de campeão nacional de Itália.
Dancelli era conhecido pela sua coragem sem limites e pela facilidade com que saltava do pelotão para fugas solitárias. Com a sua partida, o desporto perde um dos últimos românticos que provou que, com audácia, é possível bater os favoritos.







