Extremo britânico da Red Bull–Bora-Hansgrohe lidera um projeto inovador que traz para o ciclismo técnicas de aerodinâmica usadas na Fórmula 1, com o túnel de Catesby a servir de “túnel de vento” subterrâneo.
Um túnel ferroviário transformado em laboratório de aerodinâmica
O túnel de Catesby, no norte de Londres, deixou de ser apenas um vestígio ferroviário para se tornar um dos espaços mais avançados do mundo na análise da aerodinâmica no ciclismo. Ao longo de 2,7 quilómetros perfeitamente retos e abrigados do vento, Dan Bigham, engenheiro, ciclista e especialista em aerodinâmica, transformou o local num verdadeiro laboratório sobre rodas.
A trabalhar atualmente para a Red Bull–Bora-Hansgrohe, depois de ter sido peça-chave no projeto do recorde da hora da Ineos, Bigham liderou um teste que aproxima o ciclismo das metodologias usadas na Fórmula 1.
O objetivo é simples de enunciar, mas complexo de executar: perceber exatamente como o ar se comporta em redor do corpo de um ciclista em movimento, em vez de apenas estimar através de números e gráficos.
PIV: a técnica de Fórmula 1 que “desenha” o ar à volta do ciclista
No centro da experiência está a técnica PIV, sigla de Particle Image Velocimetry, sistema que permite “ver” o fluxo de ar em tempo real. Para o teste no túnel de Catesby, Bigham pedalou através de um corredor de lasers, com o corpo coberto por um pigmento preto mate, que evita reflexos e distorções nas medições.
O ambiente foi preenchido com minúsculas bolhas de hélio, que funcionam como marcadores visuais do ar em movimento. Oito câmaras de alta velocidade captaram milhares de imagens por segundo, desenhando um mapa detalhado de turbulências e zonas de pressão em redor da silhueta do ciclista.
Segundo o próprio Bigham, a margem de erro é mínima. “Mover uma perna uns milímetros pode deitar a medição a perder”, explicou no podcast da Escape Collective, sublinhando a precisão extrema exigida.
Do CFD à realidade: validar os modelos virtuais
Mais do que procurar uma posição milagrosa ou um capacete revolucionário, o grande objetivo de Dan Bigham com este teste no túnel de Catesby passa por validar os modelos computacionais de dinâmica de fluidos, conhecidos como CFD.
“Antes, tínhamos de intuir muitas coisas. Agora, conseguimos vê-las”, resumiu o britânico. A frase sintetiza a importância do passo dado: não basta saber quanta resistência o ciclista enfrenta, é crucial localizar exatamente onde e como essa resistência se gera.
Sem esta validação em ambiente controlado, os modelos CFD correm o risco de ser apenas “números num ecrã”, sem garantia de correspondência com a realidade. O trabalho em Catesby pretende precisamente encurtar essa distância entre simulação e estrada.
Red Bull, Fórmula 1 e o salto tecnológico do ciclismo
A ligação à Red Bull–Bora-Hansgrohe traz inevitavelmente o paralelismo com a Red Bull Racing, estrutura de Fórmula 1 que há muitos anos explora técnicas semelhantes na análise aerodinâmica dos seus monolugares.
Mesmo com essa herança tecnológica, Bigham reconhece que a correlação perfeita entre CFD e ensaios reais continua a ser um desafio, tanto na F1 como no ciclismo. Ainda assim, vê o lado positivo: “Estamos atrasados, sim, mas estamos melhor do que a Fórmula 1 nos seus primeiros passos” neste tipo de metodologia, defende.
O ensaio no túnel de Catesby, avaliado em cerca de 30 mil libras e responsável pela produção de terabytes de dados, pode ser o ponto de viragem para a próxima geração de desenvolvimento aerodinâmico no pelotão profissional.
Um futuro de testes virtuais para o ciclista de elite
Se os modelos virtuais de CFD passarem a reproduzir com fidelidade o comportamento do ar observado com a técnica PIV, os equipas poderão testar posições, materiais e configurações de forma massiva em ambiente digital, reduzindo a dependência de túneis de vento físicos.
Nesse cenário, o ciclista testaria “versões” de si próprio num mundo virtual, poupando tempo e recursos e focando os ensaios reais apenas na afinação final. Bigham deixa, contudo, um aviso: esta ferramenta não serve para procurar pequenas melhorias semana após semana, mas para garantir que cada ganho identificado é sólido e real.
À medida que a aerodinâmica se afirma como um dos grandes campos de batalha no ciclismo de alto rendimento, o trabalho de Dan Bigham no túnel de Catesby pode ser recordado como o momento em que o pelotão entrou, em definitivo, em modo Fórmula 1.








