O presidente da Ferrari culpa Hamilton e Leclerc pelo mau momento da equipa, contudo o problema é bem mais profundo — e arrasta-se desde o fim da era Schumacher.
A Ferrari atravessa uma das fases mais delicadas da sua história recente na F1. As palavras do presidente John Elkann, que afirmou que os pilotos “devem falar menos e pilotar mais”, geraram enorme polémica e expuseram uma crise estrutural que já se arrasta há quase duas décadas. A crítica, dirigida a Lewis Hamilton e Charles Leclerc, reflete uma tentativa de transferir responsabilidades num momento em que o lendário Cavallino Rampante continua sem encontrar o caminho das vitórias consistentes. A resposta de ambos os pilotos, também não tardou, mas esta, e ao contrário do apontar de dedos do presidente, foi num tom de união e consciencialização que para se resolver este problema, terá que ser um trabalho de equipa.
I back my team. I back myself. I will not give up. Not now, not then, not ever. Thank you, Brazil, always 🇧🇷 pic.twitter.com/bU4gAdCOb4
— Lewis Hamilton (@LewisHamilton) November 10, 2025
O heptacampeão britânico, que chegou a Maranello em 2025 como o rosto da esperança para devolver a glória à equipa, ainda não subiu ao pódio com o monolugar vermelho. O contraste entre o estatuto de Hamilton — o maior vencedor da história da F1 — e o fraco desempenho da Ferrari intensificou a pressão sobre todos os envolvidos. Porém, reduzir o problema ao rendimento dos pilotos é ignorar um mal que vem de longe.
O início da decadência: o fim da era Schumacher
A atual crise da Ferrari tem raízes no passado. Desde que o “dream team” formado por Michael Schumacher, Jean Todt, Ross Brawn e Rory Byrne se desfez, no final de 2006, a equipa nunca mais recuperou a estabilidade e a cultura vencedora que dominaram o início dos anos 2000. Entre 2000 e 2004, a Scuderia conquistou cinco títulos consecutivos de pilotos e construtores. A saída de Schumacher e, no ano seguinte, de Todt, deixou um vazio técnico e de liderança difícil de preencher. Desde então, a Ferrari já teve cinco chefes de equipa diferentes — uma rotatividade que reflete a falta de rumo e de paciência em construir um projeto sólido.




Década de mudanças e desilusões
Após a saída de Todt, Stefano Domenicali assumiu o comando. Esteve perto da glória com Felipe Massa (2008) e Fernando Alonso (2010 e 2012), todavia, viu o projeto ruir em 2014, com a chegada da era híbrida e o respetivo domínio da Mercedes. O próprio Domenicali acabou afastado, tal como Alonso e o presidente Luca di Montezemolo, que tinha sido uma das figuras-chave da era Schumacher.
Seguiu-se Marco Mattiacci, cuja passagem foi curta e ineficaz, e depois Maurizio Arrivabene, trazido por Sergio Marchionne numa tentativa de reconstrução com Sebastian Vettel como nova estrela. O esforço rendeu vice-campeonatos em 2017 e 2018, mas o falecimento súbito de Marchionne desfez novamente os alicerces do projeto.
Com John Elkann na presidência, a Ferrari entrou numa nova fase de instabilidade. Mattia Binotto, engenheiro talentoso mas inexperiente na gestão desportiva, assumiu o comando em 2019 e saiu em 2022, deixando a equipa sem conquistas relevantes. Foi então substituído por Frédéric Vasseur, que chegou com a missão de reerguer Maranello e atrair Lewis Hamilton — uma jogada audaciosa que prometia marcar uma nova era.
A chegada de Hamilton e o colapso da esperança
A contratação de Hamilton foi vista como o regresso do sonho. A Ferrari conseguiu o impossível: convencer o heptacampeão a deixar a Mercedes e vestir o vermelho. Porém, a transição revelou-se difícil. A equipa, ao tentar adaptar o monolugar ao estilo do britânico, acabou por criar um carro desequilibrado. O problema, contudo, é mais profundo. Sob o atual regulamento técnico — marcado pelo efeito-solo —, o estilo de pilotagem de Hamilton não encontra total sintonia com o carro. O próprio piloto reconheceu essa limitação, mas em vez de paciência e trabalho em conjunto, encontrou críticas públicas de Elkann, que o acusou de falar demais e pilotar de menos.
Tough weekends fuel us to bounce back stronger 🫡 pic.twitter.com/AT81dWj1Bx
— Scuderia Ferrari HP (@ScuderiaFerrari) November 10, 2025
As palavras de Elkann e o silêncio de Maranello
A declaração do presidente, divulgada pelo Corriere della Sera, provocou um verdadeiro terremoto interno. Criticar Hamilton — um dos pilotos mais respeitados e conscientes da atualidade — foi interpretado como um gesto de desespero e desresponsabilização, principalmente para todos os fãs que acompanham a realidade da modalidade. Hamilton, conhecido por usar a sua voz para temas sociais e desportivos, “fala com as paredes em Maranello”, como ironizaram alguns analistas. A equipa parece não conseguir aproveitar a sua experiência e liderança, limitando-se a procurar culpados em vez de soluções, numa situação que, a bom rigor, todos são culpados.
John elkann't pic.twitter.com/gH8TaN0Bez
— F1 TROLL (@f1trollofficial) November 11, 2025
A comparação com o sucesso no Endurance
Curiosamente, Elkann apontou o sucesso da Ferrari no Mundial de Endurance (WEC) como exemplo de união e competência. O problema é que, no WEC, a equipa conta com algo que falta à estrutura da Fórmula 1: estabilidade. Antonello Coletta, responsável pelo programa de resistência desde 2015, manteve uma liderança sólida e paciente, que culminou no triunfo histórico nas 24 Horas de Le Mans, 59 anos depois. Já na F1, essa estabilidade nunca existiu. As constantes mudanças na gestão e na filosofia técnica impedem qualquer continuidade. A falta de visão a longo prazo é hoje o maior obstáculo da Ferrari.
Walk this way 💪 pic.twitter.com/9yv8L8lTiZ
— Scuderia Ferrari HP (@ScuderiaFerrari) November 3, 2025
Maranello precisa de tempo
Mais do que uma crise de resultados, a Ferrari vive uma crise de identidade, provavelmente a maior de toda a sua história. Desde 2007 que procura um novo Schumacher, um novo Todt, um novo ciclo dourado — mas continua a agir como se o sucesso fosse imediato. As críticas de Elkann a Hamilton apenas reforçam a perceção de que a equipa ainda não compreendeu a essência de um projeto vencedor: estabilidade, paciência e liderança. Enquanto continuar a mudar chefes de equipa, reformular carros e apontar o dedo aos pilotos, e olhar pouco para si, a Ferrari continuará a repetir os mesmos erros.











