Ciclista luso fez a terceira melhor prestação de sempre de um português no Giro D’Italia.
O aguerrido Afonso Eulálio conquistou os adeptos a sorrir
Afonso Eulálio apresentou-se ao mundo na 109.ª Volta a Itália, na qual o ciclista português encantou pela sua descontração e perseverança, vendo a sua permanente vontade de aprender recompensada com a ‘maglia bianca’.
Aos 24 anos, o corredor da Bahrain Victorious, não só ajustou contas com o Giro, depois de ter abandonado na antepenúltima etapa da passada edição, como se tornou num favorito dos fãs da modalidade, deslumbrados pelo caráter e carisma do miúdo que andou nove dias de rosa e se sagrou melhor jovem desta edição.
Nesta Volta a Itália aquilo que os adeptos descobriram foi uma ‘natural born star’: Eulálio mostrou-se desenvolto diante das câmaras durante as etapas, abrindo mesmo rasgados sorrisos até quando ia a passar dificuldades, e nas entrevistas, demonstrando uma grande evolução no inglês, que mal falava quando ingressou no WorldTour no início da temporada passada.
O à vontade do figueirense conquistou, inclusive, referências da modalidade como Alberto Contador, que se mostrou encantado quando o líder da juventude sorria para a transmissão televisiva em pleno Passo Giau, o ‘teto’ deste Giro, e não se cansou de elogiar-lhe a fortaleza mental e o espírito lutador – o português foi mesmo um dos únicos homens da geral que teve a ousadia de atacar o campeão Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike).
Profundamente respeitador das diretrizes da Bahrain Victorious – não dá entrevistas a ninguém se não tiver autorização dos assessores e nem ao Presidente da República, António José Seguro, atendeu o telefone por pensar tratar-se de um jornalista -, este fã confesso de reggaeton, risoto e barbecues tornou-se ciclista de estrada por mero acaso, ou melhor, porque António Amorim precisava de reforçar o plantel do Sport Ciclismo São João de Vêr.
“Andei a fazer uma pesquisa na Internet e, como o BTT nos deu muitos bons ciclistas, eu fui vendo quem é que fazia os melhores resultados nas provas de BTT a nível nacional. […] O Afonso aparecia-me sempre bem colocado”, contou à Lusa, no segundo dia de descanso.
Foi através de uma mensagem no Facebook que o agora massagista da EF Education-Easy Post convenceu Eulálio a juntar-se à sua equipa de juniores, onde o sexto classificado do Giro2026 aprendeu coisas tão simples como “vir ao carro buscar um bidão, abrigar-se do vento, andar em pelotão”.
“Queria aprender muito rápido, porque sabia que estava contra o tempo. Praticamente é quase impossível, é muito difícil começar no segundo ano [de júnior] e depois vir a dar o ciclista que ele está a ser”, refletia Amorim, enquanto o corredor de Canosa, Figueira da Foz, ainda andava de rosa.
A disponibilidade para aprender, aliadas à curiosidade e à irreverência, fizeram-no destacar-se e tornar-se profissional no Feirense, equipa que representou, primeiro, entre 2020 e 2021.
No entanto, foi na Glassdrive-Q8-Anicolor que finalmente ‘despontou’, ao sagrar-se campeão nacional de fundo de sub-23 e ao fazer parte do elenco que dominou a Volta a Portugal. Regressou, então, ao Feirense para ser uma das figuras da equipa, um estatuto que assumiu irremediavelmente em 2024 ao liderar durante seis dias a prova ‘rainha’ do calendário nacional.
Embora tenha acabado em 10.º, a prestação daquele que então era apelidado de ‘menino de ouro’ captou a atenção da Bahrain Victorious, com Eulálio a ser um dos pouquíssimos ciclistas que nos últimos anos saltou do desprestigiado pelotão nacional para o WorldTour, deixando por onde passou a imagem de um miúdo tranquilo e brincalhão, mas reservado, e também de um trabalhador sempre com vontade de saber em que poderia melhorar.
Após uns meses de adaptação, o melhor jovem do Giro2026 deu, finalmente, o salto de qualidade no Mundial do Ruanda, onde foi nono na prova de fundo, uma das melhores prestações nacionais de sempre.
“Aí eu vi e percebi que ele realmente já não era Eulálio de ser um menino da equipa, de ajudar os colegas, era um pouco mais. E a equipa também viu isso”, defendeu o antigo selecionador José Poeira, em declarações à Lusa.
Ao contrário do ano passado, em que acabou por não estagiar em altitude por ter de “ir ali, depois ir acolá”, num distribuição de corridas que comparou a “um totoloto ou sorteio”, esta temporada o português focou-se quase exclusivamente no Giro e teve “a preparação perfeita”, como descreveu à Lusa.
Por isso, nos últimos dois meses, esteve “três, quatros dias” em Cacia (Aveiro), onde agora reside e que se ‘pintou’ de rosa, passando menos tempo com a família e a namorada, a antiga ciclista Marisa Ferreira, do que com Damiano Caruso, o companheiro que passou de ídolo a mentor e que tanto o ajudou a defender a ‘maglia bianca’.
“Apostámos que se eu vencesse duas etapas, ele assinava por mais um ano”, revelou o português quando chegou à camisola rosa, dando os primeiros sinais de uma cumplicidade que se veria na estrada e que lhe deu mais força para defender a liderança da juventude.
Neste Giro, soube agarrar a oportunidade proporcionada pela desistência do líder da Bahrain, o colombiano Santiago Buitrago, logo na segunda etapa, e três dias depois integrou a fuga num dia de duríssimas condições climatéricas rumo à camisola rosa, numa jornada em que caiu, mas foi segundo na meta.
Apesar de não ter vencido nenhuma etapa, o objetivo que tinha traçado, o figueirense sai desta Volta a Itália com feitos muito mais importantes: o título de melhor jovem numa prova que liderou durante nove dias, sendo o segundo luso que mais tempo o fez apenas atrás de João Almeida (15 em 2020), e o terceiro melhor resultado de sempre de um português em 109 edições.
Seguiu as pisadas de João Almeida e Ruben Guerreiro
O espírito lutador de Afonso Eulálio valeu a Portugal a quinta classificação secundária numa grande Volta, com o ciclista da Bahrain Victorious a juntar-se hoje a João Almeida e Ruben Guerreiro no palmarés do Giro.
Aos 24 anos, o figueirense fez história nacional na sua segunda presença na Volta a Itália e em ‘grandes’, conquistando, com grande garra, um lugar no pódio final da 109.ª edição como melhor jovem.
Foi na quinta etapa que Eulálio ‘assaltou’ a liderança da classificação da juventude, após integrar uma fuga que lhe valeu o segundo lugar na jornada e também a ‘maglia rosa’, e não mais de lá saiu, sobrevivendo à perigosa aproximação do italiano Davide Pingazoli (Visma-Lease a Bike), a quem acabou mesmo por ganhar tempo no penúltimo dia.
O corredor da Bahrain Victorious traz a camisola branca para casa e consegue a terceira classificação secundária na ‘corsa rosa’ para Portugal, sucedendo ‘internamente’ a João Almeida, melhor jovem da edição de 2023.
Nesse ano, para o melhor voltista nacional da atualidade, ausente desta edição por não estar a 100%, a ‘maglia bianca’ foi uma consequência da sua presença no pódio da geral – foi terceiro -, com o atual vice-campeão da Vuelta a ganhar ainda uma etapa, no Monte Bondone.
É definitivamente na prova italiana que os portugueses melhor se dão, já que também Ruben Guerreiro se sagrou ‘rei da montanha’ em 2020, ano em que venceu ainda a nona etapa, em Roccaraso, interrompendo um jejum que durava desde 1989.
A partir daí, disputou a camisola da montanha até final e conseguiu mesmo segurar a ‘maglia azzurra’.
Antes destes talentos das gerações mais recentes do ciclismo português, todos eles mais vocacionados para terrenos montanhosos, estes feitos estiveram destinados à Volta a Espanha e a dois corredores diferentes, a começar por outro antigo líder do Giro e vencedor de etapas.
Acácio da Silva venceu em Itália e em França, tendo liderado Giro e Tour, e em Espanha só lhe ficou a faltar uma etapa para completar a trilogia nas ‘grandes’, ‘contentando-se’ com a classificação de sprints especiais da Vuelta de 1991.
Antes disso, Fernando Mendes correu a Vuelta de 1975, um ano depois de se sagrar campeão da Volta a Portugal, e pelo Benfica venceu a classificação das metas volantes dessa edição da corrida espanhola, em que acabou no sexto lugar final.
Estas contas não incluem a classificação por equipas que já ‘premiou’ o trabalho de gregários como Sérgio Paulinho e Nelson Oliveira, por várias ocasiões, mas não só – João Almeida, por exemplo, ainda na Vuelta2025 subiu ao pódio com os seus companheiros da UAE Emirates, vencedora desta classificação.
Portugueses vencedores de classificações secundárias de grandes Voltas:
- Afonso Eulálio – Juventude no Giro de 2026.
- João Almeida – Juventude no Giro de 2023.
- Ruben Guerreiro – Montanha no Giro de 2020.
- Acácio da Silva – Sprints especiais na Vuelta de 1991.
- Fernando Mendes – Metas volantes na Vuelta de 1975.
Terceiro melhor português de sempre no Giro
Afonso Eulálio é apenas o terceiro ciclista português a integrar o top 10 de uma grande Volta neste século, com o sexto lugar do figueirense a ser superado só por João Almeida e José Azevedo.
Um ano após ter desistido da estreia na ‘corsa rosa’ na antepenúltima etapa, o corredor da Bahrain Victorious tinha, como confessou à agência Lusa antes do arranque da 109.ª edição, contas a ajustar com a prova e fê-lo de forma surpreendente, chegando mesmo a vestir a camisola rosa durante nove dias.
Afonso Eulálio fugiu para a liderança da geral na quinta etapa, na qual foi segundo atrás do espanhol Igor Arrieta (UAE Emirates), e apresentou-se ao mundo velocipédico, que foi ficando progressivamente mais impressionado com a capacidade do português de 24 anos.
Quando todos pensavam que perderia a ‘maglia rosa’ nas primeiras etapas de alta montanha e, sobretudo, no contrarrelógio, o figueirense conseguiu ir-se defendendo, com o auxílio de Damiano Caruso, o experiente italiano que decidiu despedir-se do Giro ajudando o seu jovem colega.
Depois de ceder a rosa a Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike), o anunciado vencedor, na 14.ª etapa, foi-se mantendo na luta pelo pódio durante mais duas jornadas, antes de cair para quinto na subida a Carì.
Com a camisola da juventude para defender, nem os Dolomitas travaram Eulálio, que saiu da etapa ‘rainha’ deste Giro na sexta posição, mantendo-a no sábado, na derradeira jornada de montanha.
Assim, e na sua segunda grande Volta, o jovem de 24 anos é já o terceiro melhor português de sempre no Giro, atrás de João Almeida e José Azevedo, que foi quinto em 2001.
É João Almeida aquele que melhores resultados tem na prova onde se deu a conhecer, tendo sido terceiro na edição de 2023, quarto na de 2020 e sexto na de 2022.
Eulálio também perde para o corredor de A-dos-Francos no número de dias vestido de rosa, uma vez que o ciclista da UAE Emirates liderou o Giro durante 15 dias há seis anos.
No entanto, o figueirense, que está a cumprir apenas a sua segunda temporada no WorldTour, pode orgulhar-se de ter superado Acácio da Silva, sétimo em 1986, e de ser já o terceiro melhor português em grandes Voltas neste século, atrás de Almeida – tem sete presenças no top 10 – e Azevedo, que foi quinto no Tour2004 e sexto no Tour2002.
Eulálio é também o 10.º ciclista nacional de sempre a fechar uma corrida de três semanas entre os 10 melhores da geral.
Portugueses no top 10 de Grandes voltas:
– Joaquim Agostinho (11):
- 2.º na Vuelta de 1974
- 3.º no Tour de 1978
- 3.º no Tour de 1979
- 5.º no Tour de 1971
- 5.º no Tour de 1980
- 6.º na Vuelta de 1973
- 6.º no Tour de 1974
- 7.º na Vuelta de 1976
- 8.º no Tour de 1969
- 8.º no Tour de 1972
- 8.º no Tour de 1973
– João Almeida (7)
- 2.º na Vuelta de 2025
- 3.º no Giro de 2023
- 4.º no Tour de 2024
- 4.º no Giro de 2020
- 4.º na Vuelta de 2022 *
- 6.º no Giro de 2022
- 9.º na Vuelta de 2023
– José Azevedo (3)
- 5.º no Giro de 2001
- 5.º no Tour de 2004 **
- 6.º no Tour de 2002 **
– Afonso Eulálio (1)
- 6.º no Giro de 2026
– Acácio da Silva (1)
- 7.º no Giro de 1986
Ribeiro da Silva
- 4.º na Vuelta de 1957
– João Rebelo (1)
- 6.º na Vuelta de 1945
– Fernando Mendes (1)
- 6.º na Vuelta de 1975
– José Martins (1)
- 8.º na Vuelta de 1975
– Alves Barbosa (1)
- 10.º no Tour de 1956
As palavras depois da conquista
Afonso Eulálio confessou que foi um privilégio partilhar o pódio final da 109.ª Volta a Itália com o campeão Jonas Vingegaard, “um dos melhores ciclistas de sempre”, e ouvir o público gritar o seu nome em Roma.
“É um prazer partilhar o pódio com o Jonas, que é um dos melhores ciclistas de sempre. Estar lá com ele é de loucos. Vi os filhos e a mulher dele, todos a gritar o meu nome “Afonso, Afonso”… é inacreditável”, descreveu em declarações aos meios oficiais da Volta a Itália.
Aos 24 anos, o português da Bahrain Victorious foi o melhor jovem da 109.ª edição, que hoje terminou em Roma com Vingegaard como vencedor, subindo ao pódio final para vestir a ‘maglia bianca’, conquistada graças ao seu sexto lugar na geral.
“Quando chegar a casa, tiver um tempo para descansar e estar tranquilo, vou começar a pensar que fiz top 10 no Giro”, respondeu, depois de ter reconhecido que ainda não conseguiu assimilar o seu feito.
O figueirense vai regressar a Portugal com o título de melhor jovem numa prova que liderou durante nove dias, sendo o segundo luso que mais tempo o fez apenas atrás de João Almeida (15 em 2020), e o terceiro melhor resultado de sempre de um português em 109 edições.
“Às vezes, faço coisas muito boas, como no ano passado fiz top 10 nos Mundiais [foi nono]. Às vezes, sigo o [Tadej] Pogacar, mas ainda tenho tanto para aprender. Vou continuar a trabalhar e a aprender e espero fazer mais coisas boas no futuro”, salientou.
Eulálio disse ainda gostar “mesmo da Volta a Itália”, garantindo que quer regressar no futuro.
“Não sei se para o ano, tenho de ver com a equipa. Mas quero regressar. No meu primeiro ano com a equipa, disse que era a minha corrida favorita. Estreei-me em grandes Voltas aqui, voltei e fiz este Giro fantástico”, notou.
Na sua segunda participação em grandes Voltas, depois de ter desistido na antepenúltima etapa da passada edição da prova italiana, o antigo campeão nacional de fundo de sub-23 (2022) tornou-se também no terceiro luso a conquistar uma camisola no Giro e o segundo a vencer a juventude, após João Almeida há três anos.
“Foi um sonho viver este Giro, foi incrível […]. Agora, quero desfrutar do que vivi e desligar da bicicleta e, quando regressar, fazê-lo pouco a pouco. E, depois sim, ver com a equipa o que posso fazer”, disse numa posterior entrevista na zona mista, em Roma.
Para Eulálio, melhor do que trazer a camisola branca para Portugal só mesmo “olhar para todas as pessoas” que estiveram à sua volta e a trabalhar consigo e “ver como estão contentes”.






