A edição do Dakar 2026, a sexta consecutiva na Arábia Saudita, promete uma das grelhas mais competitivas de sempre na categoria de carros. David Castera, diretor da prova, admite que a era em que apenas quatro veteranos concentravam o favoritismo está a chegar ao fim e destaca a emergência de uma nova vaga de candidatos ao triunfo absoluto.
Mais candidatos, menos hierarquias
Em declarações à imprensa espanhola, Castera sublinhou a mudança de cenário competitivo na disciplina dos rally raids.
“Antes só podiam ganhar os quatro velhos, entre aspas, Peterhansel, Carlos Sainz, Nasser Al Attiyah. Agora há muitos mais. Os portugueses, Loeb, Moraes. São sete ou oito que podem vencer e isso muda tudo”, frisou o diretor do Dakar, apontando para um pelotão mais alargado na luta pela vitória.
O responsável francês considera que o equilíbrio técnico entre os diferentes construtores está no melhor nível dos últimos anos, o que reforça o peso do talento dos pilotos na definição da classificação final.
Dakar 2026: traçado longo e dificuldade sustentada
O Dakar 2026 mantém a filosofia adotada nas últimas edições na Arábia Saudita. Serão quase cinco mil quilómetros cronometrados, num percurso que Castera descreve como “variado, duro e equilibrado nas duas semanas”.
O traçado combina zonas de pedra e piso técnico com secções rápidas, dunas e areia, num desenho que pretende castigar erros, sem transformar a prova numa simples corrida ao sprint. “Nos últimos dois anos tivemos um percurso que não era fácil. Em 2026 vamos ter duas semanas praticamente ao mesmo nível de dificuldade”, explicou.
O diretor rejeita a ideia de que o Dakar se tenha tornado uma prova de velocidade pura e lembra que a gestão de ritmo continua a ser crucial. “Se fores a 100 por cento sempre, não terminas o Dakar”, reforçou.
Motos com favoritismo concentrado, carros em aberto
Se nos carros Castera vê um leque alargado de candidatos, nas motos o cenário é diferente. O francês reconhece que o favoritismo está mais concentrado em poucos nomes, com as estruturas de Honda e KTM a liderarem as contas.
“Nas motos há cinco pilotos com opções. Sempre houve anos com cinco ou dez candidatos e outros com três ou quatro, como agora. E há um australiano um pouco acima de todos”, referiu, numa alusão à forma atual de Daniel Sanders.
Ainda assim, a organização acredita que o desenho das especiais e a gestão estratégica poderão manter a incerteza até ao último dia.
Adeus temporário ao Empty Quarter, sem perder identidade
Uma das principais diferenças do Dakar 2026 face a 2025 será a ausência do Empty Quarter, o gigantesco deserto de dunas que se tornou imagem de marca do Dakar na Arábia Saudita. Castera garante, no entanto, que a identidade da prova não fica em causa.
“Este ano não passamos pelo Empty Quarter, mas isso não significa que seja para sempre. É provável que regressemos em 2027. A grandeza do Dakar 2026 não depende apenas do Empty Quarter”, defendeu.
O francês também lembrou que, historicamente, esta zona do deserto raramente foi decisiva na atribuição da vitória, apesar da sua aura de dificuldade extrema.
Etapas maratona refúgio no lugar das 48 horas
Outra alteração relevante para o Dakar 2026 é o desaparecimento da etapa de 48 horas, substituída por um novo conceito de maratonas refúgio em duas jornadas, com percursos diferentes para carros e motos.
Segundo Castera, a decisão prende-se com o facto de alguns pilotos terem utilizado a especial de 48 horas para fazer “estratégia” de forma excessiva, perdendo tempo propositadamente. “Isso não me ajuda. Preferi retirar esse formato e criar as maratonas refúgio”, explicou.
Nas novas etapas maratona, os concorrentes dormem em acampamentos com estruturas reduzidas, em tendas, com apoio muito limitado, o que reforça o espírito de aventura. As equipas não terão acesso total aos carros, aumentando a importância da gestão mecânica e da fiabilidade.
Título pode decidir-se apenas no final
Com um percurso longo, dificuldade contínua e um número inédito de candidatos credíveis à vitória, Castera acredita que o Dakar 2026 tem condições para ser decidido apenas nas últimas especiais.
“Os carros estão muito equilibrados. Se tivermos uma corrida como a de Marrocos, será incrível”, antecipou o diretor da prova, recordando o desfecho dramático do Mundial W2RC 2025, decidido após a meta da última prova.
Entre veteranos consagrados e uma nova geração de talentos que já venceu etapas e ralis importantes, o Dakar 2026 apresenta um pelotão de luxo, capaz de escrever um capítulo particularmente imprevisível na história da prova.











