A primeira semana do Dakar 2026 ficará gravada na memória das equipas não pelas dunas, mas pelo som dos rebentamentos dos pneus.
O que deveria ser uma demonstração de evolução técnica da BFGoodrich transformou-se num pesadelo logístico que obrigou a organização a introduzir paragens para troca de pneus a meio das etapas. Mas, afinal, o que é que correu mal com a nova borracha no deserto saudita?
O erro de cálculo: Reforço em cima, fraqueza ao lado
O problema reside na mudança estrutural do novo pneu introduzido este ano. Após as queixas de anos anteriores sobre furos na banda de rodagem (a parte do pneu que toca no solo), a BFGoodrich reforçou essa área.
No entanto, segundo Joan Navarro, engenheiro-chefe da M-Sport Ford, esta alteração teve um efeito colateral fatal: as paredes laterais (flancos) ficaram mais vulneráveis.
“Eles reforçaram o topo, mas agora temos mais danos laterais. No final, o número de furos é o mesmo, só mudou o local. Para nós, este pneu não foi validado antes da prova”, criticou Navarro ao Motorsport.com.
A “cerâmica” vulcânica da Arábia Saudita
Se o pneu tem lacunas, o terreno da Arábia Saudita encarregou-se de as expor da forma mais cruel. Ao contrário das edições na América do Sul, o norte da Arábia é composto por secções rochosas de origem vulcânica.
Jan Verhaegen, gestor da Toyota, explica o fenómeno mecânico: as pedras pretas e planas, afiadas como lâminas de cerâmica, são projetadas pelos pneus dianteiros e atingem violentamente a lateral dos pneus traseiros — precisamente onde o novo modelo da BFGoodrich é mais frágil. Como os pilotos estão a imprimir um ritmo de “sprint”, o embate nestas rochas a alta velocidade é quase sempre sinónimo de destruição imediata da carcaça.
Uma “lotaria” de milhões de euros
A frustração no bivouac é total. Equipas como a Ford e a Toyota investem milhões no desenvolvimento de suspensões e motores, apenas para verem as suas hipóteses de vitória dependerem da resistência de um flanco de borracha.
Matthew Wilson, diretor da Ford, resume o sentimento geral: “Tornou-se uma lotaria. O vencedor será quem tiver menos furos. Já vimos sinais deste problema no Rali de Marrocos, mas a escala aqui é muito maior.”
Com a caravana agora em Riade para o dia de descanso, a BFGoodrich está sob pressão máxima para apresentar soluções ou recomendações técnicas que evitem um “fiasco” total na segunda semana de prova, onde as rochas darão lugar à areia do sul, mas onde a fiabilidade continuará a ser o fator decisivo.








