O ciclismo mundial parou para ouvir o testemunho impressionante de Luca Guercilena sobre a batalha que travou contra um linfoma em estádio três, num relato de sobrevivência que marca a atualidade desportiva. Numa conversa íntima com a La Gazzetta dello Sport, o diretor-geral da Lidl-Trek recordou o pesadelo clínico que o afastou das estradas, revelando como conseguiu liderar uma das maiores estruturas do pelotão enquanto lutava pela própria vida num quarto de hospital.
O choque do diagnóstico inicial
Tudo começou em 2021, em vésperas da Volta a França. “Estava prestes a sair para o Tour quando senti o estômago inchado. Dor. Uma sensação que nunca tinha experimentado. Fiquei logo preocupado”, confessou Luca Guercilena sobre o início do seu calvário.
A confirmação da doença foi um golpe brutal na vida do homem da Lidl-Trek que se sentia ‘blindado’ pelo desporto. “Linfoma em estádio três. O mundo caiu sobre mim como uma pedra”, admitiu Luca Guercilena. Embora tenha tentado regressar em 2022, o diretor reconheceu que o otimismo inicial foi sol de pouca dura: “Pensei que o pior tinha ficado para trás”.
Os 160 dias de isolamento no hospital
O cenário agravou-se de forma dramática no final de 2022, quando o seu sistema imunitário cedeu completamente. “Em outubro de 2022, tudo ruiu. O meu sistema imunitário estava muito debilitado pelos tratamentos e as infeções acumularam-se de repente. Tornou-se um suplício”, recordou o italiano.
Durante cerca de 160 dias em isolamento hospitalar, em Milão, o diretor da Lidl-Trek enfrentou sete pneumonias, COVID, e viu os seus órgãos falharem. “Bastava cruzar o olhar com os médicos”, afirmou, sublinhando que sentia a gravidade no ar. No final de 2023, o desânimo foi total: “Tive a sensação de que não ia conseguir, pensei nisso”.
Liderança da Lidl-Trek a partir da cama do hospital
Mesmo no estado mais crítico, o diretor recusou desligar-se da equipa que ajudou a construir. “Lá estava eu, na cama do hospital, com oxigénio, por vezes com um soro no braço. Mas participei em reuniões. Nem que fosse para distrair a cabeça e não pensar sempre nos meus problemas”, revelou.
O seu fígado não funcionava bem devido à medicação, mas o foco desportivo manteve-o alerta. Sob o seu comando remoto, a Lidl-Trek – que tem mais uma “arma” no seu pelotão – tornou-se um peso-pesado mundial. Hoje, Guercilena tem metas claras: “Vencer um Giro ou um Tour, e tornar-nos a equipa número um do mundo”.
Uma nova visão sobre o desporto e a vida
A experiência de “quase morte” alterou profundamente as prioridades do líder da equipa norte-americana. Antes da doença, a sua postura era outra: “Como muitas pessoas que trabalham no desporto, sentia-me… invencível, de certa forma. Via a doença como algo distante”.
Agora, em 2026, a perspetiva é mais humana e equilibrada. “Ensinou-me a dar o peso certo às coisas”, explicou à publicação italiana. Luca Guercilena – que tem como adjunto na Lidl-Trek um dos mais famosos ciclistas de sempre – quer que a sua equipa seja um lugar onde todos trabalham “com prazer, com um sorriso”, sabendo que podem crescer “profissionalmente e como pessoas”.










