Com poucas voltas em pista e muitas leituras nas entrelinhas, o segundo dia de Shakedown, em Barcelona, viveu um dia estranho, mas nem por isso irrelevante para (tentar) perceber como as equipas estão a encarar a nova era da F1.
O segundo dia de testes do Shakedown para a nova temporada de F1, no Circuito de Barcelona-Catalunha, ficou longe do entusiasmo inicial registado na abertura. Um forte temporal caiu sobre a Catalunha o que acabou por transformar a terça-feira num exercício de paciência, cautela e interpretação, com apenas quatro carros a aventurarem-se verdadeiramente em pista. E, se por um lado, cada quilómetro é de facto importante para as equipas perceberem a nova filosofia, principalmente com todos as alterações ao nível do regulamento, por outro, os cuidados foram mesmo muitos e, mesmo assim, não isento de incidentes.
Hadjar conhece o lado duro da aprendizagem
Depois de ter sido o nome em destaque no primeiro dia, foi Isack Hadjar quem viveu o momento mais delicado do Shakedown. Já perto do final da sessão, o jovem francês perdeu o controlo do RB22 e acabou por bater, obrigando a equipa a recuperar o monolugar com auxílio externo. Pierre Gasly avivou a memória de todos os fãs que têm lembranças pouco simpáticas, que, em circunstâncias muito semelhantes, anos antes sofreu um acidente muito parecid com o Isack Hadjar. Todavia, a diferença, sublinhada rapidamente pelo chefe de equipa Laurent Mekies, é o contexto: uma nova geração de carros de F1, condições de pista extremas e uma fase assumida de exploração de limites.
Além disso, Hadjar beneficia de um ambiente interno diferente, numa Red Bull já sem a presença de Helmut Marko, tradicionalmente menos tolerante com erros em fases precoces. A Red Bull acabou assim, apesar deste pequeno percalço, por sair do dia no topo da tabela, com também Max Verstappen a dar um arzinho de sua graça ao experimentar o monolugar para a F1 2026. Ainda assim, os tempos pouco (ou nada) dizem, já que o que realmente importa nesta fase são os sinais deixados e as sensações sentidas por pilotos e equipas.
Pré temporada em Barcelona o piloto Francês que após uma temporada subiu pra RBR bate o Carro
— Fã de F1 atrasado (@F1atrasado) January 27, 2026
Desse jeito o piloto asiático tem que assumir esse segundo carro pic.twitter.com/CWRZn0BT78
Ferrari começa a dar sinais de robustez
Num dia em que muitos preferiram ficar nos boxes, outra agradável surpresa foi a estreia da Ferrari. Charles Leclerc e Lewis Hamilton completaram, em conjunto, cerca de 100 voltas, recorrendo a pneus intermédios e de chuva, algo que várias equipas evitaram. Claro que face às condições em pista, os dados recolhidos são limitados em termos de performance, mas relevantes no que toca à fiabilidade para a próxima temporada de F1.
Num arranque de ciclo regulamentar, esse detalhe ganha peso, sobretudo quando se observa que a Haas, também equipada com motor Ferrari, foi uma das equipas mais consistentes no primeiro dia de testes no Shakedown de F1. Não é garantia de sucesso, mas é um primeiro sinal positivo para a unidade de potência italiana numa fase em que outros projetos — como o da Cadillac — continuam a enfrentar dificuldades.
Rounding out Day 2 ✅
— Formula 1 (@F1) January 27, 2026
The weather didn't dampen our Shakedown spirits 👊#F1 pic.twitter.com/4hs6o3e0VK
Hamilton mais contido no discurso
Lewis Hamilton completou 44 voltas e, pela primeira vez desde o início dos testes, deixou um discurso menos entusiástico. Se nos dias anteriores falava de confiança e motivação, desta vez o heptacampeão assumiu que o cenário “podia ser bem pior”, tendo em conta a profundidade das mudanças técnicas em 2026. Não é um alarme, mas é um ajuste de tom que não passa despercebido para o público da F1, principalmente se tivermos em conta o fracasso que foi a temporada do piloto britânico. Além disso, a cautela de Hamilton pode refletir um realismo crescente quanto ao desafio que a Ferrari tem pela frente.
McLaren prefere esperar pelo momento certo
A McLaren optou por não colocar o MCL40 em pista na terça-feira, rejeitando o plano inicial devido às más condições climatéricas que se faziam sentir. A equipa britânica confirmou que pretende concentrar o trabalho nos dias seguintes, aproveitando ao máximo o tempo restante da semana. Com a previsão de melhoria gradual das condições, a decisão poderá revelar-se estratégica, permitindo sessões mais produtivas, numa fase em que a recolha de dados consistentes é muito mais valiosa do que simples presença em pista.
Audi entra cedo no jogo político
Mesmo antes de disputar a sua primeira temporada completa de F1, a Audi já começa a marcar posição. O diretor técnico James Key afirmou esperar que a FIA tome a “decisão certa” relativamente à alegada brecha técnica identificada nas unidades de potência da Mercedes e da Red Bull. O receio é claro: que uma vantagem estrutural comprometa a competitividade de 2026 logo à partida. A Federação enfrenta agora um dilema complexo, entre fiscalização técnica, interpretação regulamentar e equilíbrio político — e a Audi dá sinais de que não ficará em silêncio se sentir que o campeonato nasce desequilibrado. E não há como negá-lo, a Audi parte logo em “desvantagem” para a nova temporada de F1.
🚨 | Primeira bandeira vermelha do dia em Barcelona, com Nico Hulkenberg parando na pista entre as curvas 9 e 10. pic.twitter.com/miqsN1M7EG
— Mercedes-AMG F1 Brasil 🇧🇷 (@MercedesAMGF1BR) January 28, 2026
Pouco espetáculo, algumas pistas para o futuro
Com chuva, poucos carros e tempos irrelevantes, o segundo dia de testes da F1 2026 foi tudo menos empolgante para o público, que mais uma vez não teve acesso a qualquer tipo de transmissão televisiva. Ainda assim, deixou pistas importantes sobre fiabilidade, gestão de risco e, sobretudo, sobre os primeiros sinais de pilotos e carros. Os próximos dias servirão para apurar melhor todos os dados, bem como para estrear equipas em pista que ainda não tiverem ou quiseram essa oportunidade. A F1 não é um desporto de “silêncios”, mas a verdade é que parece pairar um certo secretismo à volta deste Shakedown e deste início da temporada de F1 2026.











