Entre sinais de força, estreias complicadas e decisões difíceis de explicar, o primeiro dia do Shakedwon da nova temporada de F1 revelou mais do que os tempos sugerem — e nem todos ficaram confortáveis com isso.
A F1 de 2026 já está oficialmente em pista. O primeiro dia do Shakedown de Barcelona decorreu longe do entusiasmo habitual, marcado por um ambiente contido, acesso limitado e um silêncio quase estratégico por parte da organização, relembrando que, ao contrário de anos anteriores, não houve qualquer tipo de cobertura televisiva do evento. Ainda assim, o essencial acabou por sobressair: os novos carros já rodam, alguns com mais convicção do que outros, e as primeiras tendências começaram a desenhar-se, numa sessão que acabou por ser mais produtiva do que se antecipava. Mesmo com tempo ainda distantes das referências absolutas, houve lições claras a retirar.
That's a wrap on Day 1 in Barcelona! ✅👊#F1 pic.twitter.com/OoSdkEjGKB
— Formula 1 (@F1) January 26, 2026
Red Bull e Mercedes começam com sinais de autoridade
Os cronómetros não contam toda a história, mas raramente mentem por completo na F1. Isack Hadjar terminou o dia no topo da tabela, seguido de perto por George Russell, numa jornada em que Red Bull e Mercedes deixaram a sensação de terem algo guardado. É certo que os tempos ainda ficaram cerca de sete segundos acima da pole position registada no mesmo circuito meses antes, mas isso era expectável numa fase inicial e com especificações ainda longe do limite e com muito por descobrir. Ainda assim, o ritmo consistente e a ausência de problemas significativos sugerem que ambas as equipas podem estar ligeiramente à frente da concorrência neste arranque.
A fiabilidade dá um salto face ao passado
Um dos grandes receios antes deste arranque, prendia-se com a quilometragem. A memória de 2014, ano da introdução da era híbrida da F1, continua viva: nesse primeiro dia de testes, em Jerez, foram registadas apenas 93 voltas no total. Doze anos depois, o cenário é bastante mais animador. Haas, Mercedes e Red Bull ultrapassaram a barreira das 100 voltas logo no primeiro dia, um sinal encorajador de que os novos conjuntos motopropulsores chegam mais maduros do que muitos antecipavam. Ainda há muito por afinar, é certo, mas a base parece mais sólida — e isso pode acelerar o desenvolvimento competitivo ao longo da pré-temporada.
Estreias difíceis para Cadillac e Audi, sem surpresa
Contudo, nem todos sorriram em Barcelona. As equipas estreantes na F1 enfrentaram um primeiro dia complicado, algo que, apesar de frustrante, não foge ao que costuma ser habitual nestas sessões de Shakedown ou com marcas que estão agora a dar as primeiras voltas na F1. A Cadillac completou apenas 44 voltas ao longo do dia, enquanto a Audi viu o monolugar de Gabriel Bortoleto sofrer uma avaria após 27 voltas, optando por não regressar à pista.
São números modestos, porém, perfeitamente enquadráveis num contexto de estreia absoluta. No caso da Cadillac, trata-se de uma estrutura construída praticamente do zero. Já a Audi enfrenta o desafio acrescido de desenvolver um motor próprio sem histórico recente na F1. A ambição é elevada, mas este início confirma que 2026 será, acima de tudo, um ano de aprendizagem e, provavelmente, muitas frustrações.
Williams e Aston Martin preocupam
Se algumas dificuldades já eram expectáveis, outras não deixaram de gerar alguma inquietação no paddock de F1. A Williams já tinha confirmado que não participaria na primeira semana de testes, e agora foi a vez da Aston Martin admitir um atraso no seu programa, com entrada em pista prevista apenas para quinta-feira. No caso da equipa britânica, a mudança de fornecedor de motor ajuda a explicar parte do atraso. Ainda assim, começa a ser difícil ignorar um padrão: discursos ambiciosos, mas que nem sempre se refletem na capacidade de execução. Em teoria, a situação não é tão crítica como a da Williams, mas a verdade é que nenhuma das equipas se pode dar ao luxo de perder dias de testes.
Kicking off Day 1 in Barcelona! 💪
— Formula 1 (@F1) January 26, 2026
Who went out on track today, and what times did they first leave their garages? 👀#F1 pic.twitter.com/LQjs0YGHwz
Um arranque promissor… rodeado de um secretismo evitável
Talvez o ponto mais desconcertante do dia não tenha sido técnico, mas sim estratégico. Numa era em que a F1 conquistou (e faz um esforço considerável para conquistar) novos públicos através de séries documentais, filmes (sem esquecer que F1 é candidato a quatro Óscares, sendo que um deles para a categoria de “Melhor Filme”), os testes de pré-temporada ou até Shakedowns são (ou deveriam ser) mais uma oportunidade de ouro para aproximar fãs e imprensa.
Mas, em vez disso, Barcelona recebeu um perímetro fechado, presença de segurança privada e restrições pouco habituais, afastando precisamente quem mais queria acompanhar o nascimento desta nova era. Num primeiro dia marcado por carros em pista, quilometragem sólida e apenas problemas normais de início de ciclo, a sensação foi clara: o espetáculo esteve lá — mas alguém decidiu baixar o volume. E, para um desporto que vive cada vez mais de narrativas e emoção, esse silêncio pode ter sido o maior erro.











