Os recentes cancelamentos dos GP do Bahrain e da Arábia Saudita voltaram a lembrar uma realidade pouco falada: nem todas as corridas anunciadas pela F1 chegam, de facto, a acontecer. Apesar de ser um desporto altamente planeado, com calendários definidos com anos de antecedência, a história da F1 está marcada por interrupções inesperadas. Entre crises políticas, questões financeiras, problemas de segurança e até fenómenos naturais, há pelo menos 11 corridas que ficaram pelo caminho — algumas delas já com tudo pronto para arrancar.
BREAKING: The Bahrain Grand Prix and Saudi Arabian Grand Prix have been cancelled this season due to the situation in the Middle East
— SleeperF1 (@SleeperF1) March 15, 2026
There will be no replacements for these races#F1 pic.twitter.com/KMJveyDqPA
Quando o mundo trava a F1
Um dos primeiros exemplos remonta a 1957, quando o GP da Bélgica e o GP dos Países Baixos foram cancelados devido ao impacto da Crise do Suez. O aumento dos custos e a instabilidade económica levaram as equipas a recusarem condições financeiras mais baixas.
Uns anos mais tarde, em 1969, Spa-Francorchamps, novamente na Bélgica, voltou a assistir-se a um cancelamento histórico. Desta vez, por motivos de segurança. Liderados por Jackie Stewart, os pilotos recusaram competir num circuito considerado demasiado perigoso. Os números não escondem a perigosidade: a pista original fazia parte de uma via pública de 14 km cercada por árvores, postes e casas. Se isso não fosse suficiente, só nos aos 60 o circuito registou 10 fatalidades. Sem dinheiro para reformular a pista, os pilotos começaram a boicotar, num momento que ajudou a redefinir os padrões de segurança no desporto.
Corridas que nunca passaram do papel
Porém, nem todos os cancelamentos da F1 aconteceram à última hora. Alguns eventos nunca saíram do plano teórico, como o ambicioso GP de Nova Iorque, previsto entre 1983 e 1985. A ideia de uma corrida em Nova Iorque gerou entusiasmo, mas acabou travada por protestos ambientais, entraves legais e dificuldades financeiras. Este tipo de “quase corridas” continua, ainda assim, a alimentar o imaginário dos fãs, tal como acontece com projetos semelhantes para cidades como Londres, que enfrentam desafios logísticos semelhantes.
Problemas técnicos e decisões de última hora
Mas nesta luta há um pouco de tudo, até mesmo em casos em que tudo estava preparado… até deixar de estar. Em 1985, o regresso da F1 a Spa, Bélgica mais uma vez, foi interrompido por um problema inesperado: o novo asfalto do circuito começou a desfazer-se durante os treinos. O GP da Bélgica acabou por ser adiado após condições impraticáveis, num raro exemplo de cancelamento já com carros em pista.
Também o GP do Bahrain lidou com problemas de segurança que levariam ao cancelamento da prova, em 2011, numa altura em que este traçado marcava a abertura da temporada de F1. Contudo, várias manifestações políticas, protestos violentos que deram origem a várias vítimas, e com os serviços de emergência em alerta máximo para esses, aumentaram os receios relativamente à segurança de pilotos e equipas e toda a logística. Apesar da possibilidade da corrida vir a acontecer mais tarde nessa temporada, tal não veio a acontecer. O GP do Bahrain apenas voltaria no ano seguinte, numa situação semelhante à vivida no ano anterior, só que, desta feita, já com medidas de segurança mais eficazes.
Décadas depois, em 2020, o GP da Austrália foi cancelado poucas horas antes do arranque devido à pandemia de COVID-19, após um caso positivo no paddock. Esse momento marcou o início de uma das temporadas mais atípicas da história da F1 d do mundo.
Quando a natureza dita as regras
Contudo, nem sempre são fatores humanos a interferir. Em 2023, o GP da Emília-Romanha, na Itália, foi cancelado devido a cheias devastadoras na região de Imola.
Já em 2021, o GP da Bélgica entrou para a história por motivos diferentes: a chuva intensa permitiu apenas duas voltas atrás do Safety Car, numa corrida que gerou imensa polémica após a vitória ter sido atribuída a Max Verstappen, bem como a atribuição de meia pontuação, apenas com duas voltas, reforçamos, atrás do Safety Car.
2026: um novo capítulo de incerteza
Os mais recentes cancelamentos no Médio Oriente, em 2026, juntam-se a esta lista por razões de segurança. A escalada de tensão na região tornou inviável a realização das provas no Bahrain e na Arábia Saudita, levando a FIA a tomar uma decisão considerada inevitável. Com cerca de três mil profissionais envolvidos em cada corrida, a F1 optou por não correr riscos, deixando um vazio de várias semanas no calendário — algo raro na era moderna da modalidade. Por mais que a F1 seja um evento organizado ao mais ínfimo pormenor, estas 11 corridas canceladas mostram que há fatores que, ainda assim, escapam ao controlo.










