A saída de Filipa Patão do comando técnico do Benfica continua a gerar ondas de choque no universo encarnado.
Fernando Tavares, antigo vice-presidente das “águias” e um dos grandes impulsionadores do futebol feminino no clube, utilizou as redes sociais para lançar duras críticas à estrutura do Benfica, acusando-a de não ter dado o devido valor à treinadora que agora ruma aos EUA para orientar o Boston Legacy.
Para o ex-dirigente, a saída de Patão é o resultado de uma divergência de ambições, lamentando que o clube se tenha acomodado a um “sucesso quanto baste” enquanto a técnica aspirava a patamares superiores, como a elite europeia.
Um legado de recordes e a “sombra” do Barcelona
Fernando Tavares enumerou o currículo impressionante de Filipa Patão na Luz — 13 títulos, um pentacampeonato e a nomeação para melhor treinadora da UEFA em 2024 — para sublinhar o que considera ser uma ingratidão institucional.
O ex-vice-presidente revelou ainda que o destino de Patão poderia ter sido o Barcelona, caso Domènec Guasch (atual GM do Boston Legacy) tivesse permanecido no clube catalão. Tavares sugere que a treinadora “tomou a melhor opção” ao sair para onde é efetivamente valorizada.
Críticas à gestão e à “estagnação” financeira
A análise de Tavares não se ficou pelo aspeto desportivo. O ex-dirigente apontou o dedo à gestão financeira do futebol feminino a partir da época 23/24, afirmando que o clube optou por travar o investimento.
“O tema custo travou o crescimento. A receita e a tendência de crescimento do jogo foram ignorados”, escreveu, revelando dados preocupantes: segundo Tavares, o clube passou de uma receita de 2 milhões de euros em 23/24 para menos de metade no cenário atual.
O percurso de superação
Tavares recordou também os momentos críticos, como a pesada derrota por 9-0 frente ao Barcelona, que serviu de catalisador para a mudança de rotinas e a ida definitiva para o Seixal — uma medida que, diz, exigiu coragem do Presidente para alterar as rotinas da formação masculina. O antigo dirigente elogiou a capacidade de Patão em “falar com resultados” num mundo maioritariamente masculino, transformando a desconfiança inicial em liderança e mérito.
Leia a declaração na íntegra:
“Filipa Patão vai iniciar um novo legado, agora no Boston. Filipa adora a ação. Contudo estes últimos meses exigiram o melhor em termos de planeamento. Algo que domina como ninguém. Planear, executar e comunicar bem fazem parte dela. Junta-se a Domè Guasch, GM, que revolucionou o Barcelona. Antevemos qual teria sido o seu provável destino caso o Domè tivesse ficado no Barcelona.
Deixa um legado no Benfica, 13 títulos, pentacampeonato, 10ª posição do ranking da UEFA, quartos da LC, 2º lugar do ranking mundial da IFFHS, melhor treinadora em 2024 e nomeada para melhor treinador(a) pela UEFA em 2024. Não teve o merecido reconhecimento por parte do clube. A sua saída serviu os propósitos de quem sobre o feminino apenas pretende sucesso quanto baste. Filipa queria mais. Tomou a melhor opção. Devemos estar onde nos valorizam.
Quando defrontámos o Chelsea a treinadora Emma Hayes disse-me que o Benfica em 3 anos de projeto tinha atingido um patamar que ao Chelsea tardou 9 anos. E assim foi até 23/24. Progressão contínua. A partir daí a estagnação. O tema custo travou o crescimento. A receita e a tendência de crescimento do jogo foram ignorados. Em 23/24 o clube gerou 2 M de receita. Hoje gera menos de metade.
É uma treinadora diferenciada. Na comunicação nunca repete uma narrativa. No treino privilegia os comportamentos em jogo. Não se prende a sistemas organizativos. O jogo cria anarquia e as jogadoras têm de resolver. A derrota por 9-0 em Barcelona colocou-nos perante um enorme desafio. Lembro-me das palavras do treinador do Barcelona após o jogo. Quando jogou contra o Lyon e perdia 4-0 aos 15 minutos todos perceberam no Barcelona que tinham de mudar. Trabalhar sobre uma derrota custa, mas foi necessário. Revimos todo o processo multidisciplinar. Era determinante alterar as rotinas dos microciclos. Usar uma dispersão de infraestruturas criava fadiga e não otimizava o trabalho físico. A ida para o Seixal foi essencial e aí o Presidente teve a coragem de apoiar a medida. Tal obrigou a profundas alterações nas rotinas do futebol de formação. Passado um ano empatámos 4-4 com o Barcelona.
Num campo onde as vozes mais ouvidas são masculinas, aprendeu a falar com resultados. Começou como jogadora, acumulando funções como treinadora. As portas não se abriram facilmente. Houve desconfiança, comentários e testes à sua competência. A persistência foi maior do que qualquer resistência. Transformou limitações em método e dúvida em motivação. Ao assumir o comando técnico, encontrou um balneário atento. Respondeu com preparação e liderança. Fez do diálogo uma ferramenta, da disciplina um pilar e da coragem uma marca. As vitórias não vieram por acaso, foram construídas. Cada conquista desmontava preconitos e provava que competência não tem género. A sua trajetória é uma referência. Não apenas pelos títulos, mas pelo caminho que abriu. Subiu a pulso e mostrou que o futebol cresce quando acolhe talento, diversidade e mérito. A sua história é um sinal de mudança.”








