Bem-vindo ao Histórias do Mundial, a rúbrica do Fora de Jogo que conta um episódio marcante dos campeonatos do mundo por dia.
A Batalha de Santiago que agitou o Mundial
Em 1962, um Chile que tinha sido assolado por um terramoto pouco tempo antes, recebeu o Mundial, num torneio que procurava restabelecer o país e o povo chileno.
O torneio e o percurso da equipa chilena ficou, no entanto marcado pelo jogo com a Itália, uma partida tão violenta que ficou conhecida como a ‘Batalha de Santiago’.
O terramoto que assolou o país
Em 1960, a dois anos do arranque do Mundial de 1962, o Chile foi vítima do Terramoto de Valdivia, um fenómeno tão poderoso que apontou 9,5 na escala de Richter, para se tornar no sismo mais forte já alguma vez registado.
Com milhares de mortos, feridos e desalojados, a organização do campeonato do mundo ficou em risco. O presidente do comité organizador chileno, Carlos Dittborn, fez um apelo famoso à FIFA: “Porque não temos nada, queremos fazer tudo”.
O país uniu-se, conseguiu reerguer-se, e contruir todas as infraestruturas necessárias para o torneio, em tempo recorde. O Campeonato tornou-se, então, numa questão de orgulho nacional.
Os jornalistas italianos que incendiaram o Chile
Os antecedentes da Batalha de Santiago começaram bem antes do jogo arrancar. Ainda duas semanas antes do torneio, dois jornalistas italianos, Antonio Ghirelli e Corrado Pizzinelli — enviaram crónicas para os jornais Il Resto del Carlino e La Nazione.
O retrato pintado do país foi impiedoso, tendo sido considerado como xenófobo pelos locais. Descreveram a capital como um lugar “miserável”, onde não havia acesso a telemóveis, poucos táxis, e um povo subnutrido. Escreveram, ainda, que o Chile era um país subdesenvolvido, e que organizar lá o Mundial era “pura loucura”. A terminar, pintaram as mulheres chilenas de forma depreciativa.
Os jornais chilenos traduziram estas crónicas e publicaram-nas nas primeiras páginas dos jornais, o que criou indignação no povo. Os jornalistas italianos tiveram de fugir do país, e um jornalista argentino foi mesmo agredido por ter sido confundido com um transalpino.
A Batalha de Santiago
Na segunda jornada da fase de grupos, Itália e Chile defrontavam-se. Os chilenos tinham vencido a Suíça na jornada inaugural, enquanto que os italianos tinham empatado com a Alemanha ocidental.
Se a squadra azzurra entrou em campo a saber que 66 mil pessoas os odiavam, os chilenos entraram com o orgulho ferido depois dos acontecimentos das duas semanas anteriores.
A equipa chilena ainda tentou acalmar os ânimos quando se deu a entrada em campo, dando cravos ao público no estádio. As pessoas no estádio responderam atirando as flores de volta, e com uma assobiadela ensurdecedora ao hino italiano.
A primeira falta da partida ocorreu logo aos 12 segundos, e partir desse momento, o futebol ficou para segundo plano. Aos 8 minutos, Giorgio Ferrini foi expulso depois de uma falta dura. Recusou-se a deixar o campo e a polícia militar teve de intervir.
Pouco depois, o chileno Leonel Sánchez foi rasteirado por um rival, e respondeu com um murro no adversário, que partiu o nariz a Humberto Maschio. O árbitro não viu, ou ignorou, e ninguém foi expulso. Mario David quis fazer vingança pelas suas mãos, e acertou com um pontapé voador na cabeça de Leonel Sánchez. Foi expulso e deixou Itália a jogar com 9 homens.
Na segunda parte do encontro, a polícia militar teve de entrar em campo três vezes para travar agressões mutuas entre os jogadores. O Chile acabaria por vencer por 2-0, com golos tardios. Quando a BBC transmitiu as imagens do encontro, dias depois, o comentador proferiu uma frase que ficaria eternizada: “O jogo que vão ver é a exibição mais estúpida, terrível, nojenta e vergonhosa da história do futebol”.
A Itália seria eliminada do torneio no jogo seguinte, sem conseguir ultrapassar a fase de grupos. O Chile, por outro lado, cumpriu a melhor classificação de sempre num Mundial: o terceiro lugar, depois de derrotar a Jugoslávia na última partida. Só perderam com o poderoso Brasil nas meias-finais.
Consequências do caos: os cartões entram no futebol
O árbitro desse encontro, Ken Aston, teria um impacto gigante no futuro do futebol. Na altura do jogo, não existiam cartões amarelos e vermelhos no futebol, e os avisos eram dados de forma verbal, algo muito complicado visto que o juiz não conseguia comunicar com alguns dos jogadores em campo devido às diferenças dos idiomas.
Em 1966, quando já era chefe do Comité de Árbitros da FIFA, Aston inspirou-se nesse encontro para integrar uma regra base do futebol moderno, os cartões, depois de ter a ideia ao olhar para um semáforo.
Os cartões foram aprovados pela FIFA, e seriam incluídos, pela primeira vez, no Mundial de 1970.





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