Bem-vindo ao Histórias do Mundial, a rúbrica do Fora de Jogo que conta um episódio marcante dos Campeonatos do Mundo por dia.
Um goleador que já é lenda no Haiti
Há histórias que parecem saídas de um filme. A de Duckens Nazon mistura paixão pelo futebol, decisões impossíveis, bombas a cair a poucos metros e uma fuga desesperada para salvar a própria vida. No meio de tudo isto, ainda encontrou forma de chegar ao Mundial.
Duckens Nazon não é um jogador qualquer. Aos 32 anos, é o melhor marcador da história da seleção do Haiti, com 44 golos em 80 internacionalizações, e uma das maiores figuras do futebol do país. Sem ele, seria difícil imaginar o Haiti de regresso a um Campeonato do Mundo mais de meio século depois.
O avançado construiu uma carreira longe dos grandes holofotes. Formado em França, passou por clubes de oito países diferentes, entre eles Índia, Bélgica, Escócia, Bulgária, Turquia e Irão, onde representava o Esteghlal, orientado pelo português Ricardo Sá Pinto.
O hat-trick que valeu mais do que estar no parto
Meses antes do Mundial, Nazon viveu um dos momentos mais difíceis da vida. A mulher tinha uma cesariana marcada para o dia seguinte ao decisivo Costa Rica-Haiti, jogo de qualificação para o torneio. O avançado soube que começaria no banco e quis abandonar o estágio para estar presente no nascimento do filho.
O selecionador, porém, insistiu que a sua presença era fundamental para a equipa. Depois de muita hesitação, Nazon decidiu ficar. Entrou na segunda parte… e marcou um hat-trick decisivo no empate a três golos, resultado que manteve vivo o sonho do Haiti. Enquanto isso, a mulher acabaria por dar à luz acompanhada pela família.
Bombas a 100 metros e uma fuga dramática
Já depois da qualificação, quando se preparava para viajar para França durante uma pausa concedida pelo clube iraniano, a vida voltou a trocar-lhe as voltas. Ainda dentro do avião recebeu a notícia de que o espaço aéreo tinha sido encerrado. Pouco depois regressava ao centro de Teerão, onde viu bombas cair a cerca de 100 metros enquanto tentava escapar do país.
A viagem até à fronteira com o Azerbaijão demorou horas, mas o pior ainda estava para chegar. Sem internet e sem conseguir contactar ninguém, ficou retido cerca de 35 horas entre os dois países. Apenas um cartão SIM virtual permitiu estabelecer contacto com a mulher e com a embaixada francesa, desbloqueando finalmente a saída.
Um Mundial sem ritmo… mas cheio de esperança
Desde essa fuga, Duckens Nazon não voltou a disputar qualquer encontro oficial, devido à suspensão das competições no Irão. Ainda assim, o selecionador do Haiti nunca teve dúvidas: o melhor marcador da história da seleção tinha lugar garantido na convocatória para o Mundial 2026.
Depois de trocar um parto por um hat-trick e sobreviver a uma fuga em plena guerra, o avançado chega ao maior palco do futebol com um objetivo simples: continuar a fazer aquilo que melhor sabe. Marcar golos.










