Bem-vindo ao ‘Histórias do Mundial’, a rúbrica do Fora de Jogo que conta um episódio marcante dos campeonatos do mundo por dia!
O Mundial em que Drogba parou uma guerra civil
Em 2006, o campeonato do mundo estava de regresso à Europa, para ser disputado na Alemanha, depois da última edição partilhada entre Japão e Coreia do Sul. No entanto, era noutra parte do mundo em que estavam centradas atenções antes do torneio: no continente africano.
A Costa do Marfim, seleção que, entretanto, se tornou numa potencia africana, atravessava uma guerra civil nos anos anteriores ao Mundial, uma batalha que dividia e assolava o país. Desde 2002 que o território se via assolado por uma batalha entre o sul, de maioria cristã, controlado pelo governo, contra o norte, onde os rebeldes controlavam a maior muçulmana da população.
O conflito já tinha feito milhares de mortos e mais de um milhão de deslocados, até que, em 2005, o futebol chegou para dar uma ajuda:
A 8 de outubro de 2005, a Costa do Marfim venceu o Sudão por 3-1. O empate entre Camarões e Egipto valeu uma vaga inédita para os costa-marfinenses no Mundial de 2006, onde uma equipa composta por jogadores de todos os pontos do país tinha oportunidade de se estrear na maior competição de seleções.
Logo a seguir ao jogo, as câmaras da televisão estatal seguiram os jogadores ao balneário, onde Didier Drogba se ajoelhou ao lado dos companheiros de equipa, e proferiu um discurso que iria mudar os destinos da guerra:
“Homens e mulheres da Costa do Marfim… Provámos hoje que todos os marfinenses podem coexistir e jogar juntos com o mesmo objetivo. Pedimos-vos de joelhos: perdoem. Um grande país como o nosso não pode cair na guerra. Por favor, deitem abaixo as armas”
O impacto desse forte momento foi quase imediato: as duas fações iniciaram diálogos, e o cessar-fogo foi assinado algumas semanas depois, ainda em 2005. Em 2006, o campeonato do mundo teve o condão de unir um país que se encontrava muito dividido, por questões raciais, sociais e religiosas. Uma equipa de diferentes credos, tribos, e zonas do país, criou um sentimento de pertença nacional no povo.
A Costa do Marfim acabou por calhar no grupo da morte nesse torneio, com Argentina, Países Baixos e Sérvia. Os marfinenses perderam por 2-1 com argentinos e neerlandeses, e venceram os sérvios, para terminar no terceiro lugar, que ditou a eliminação da competição.
Mais importante que os resultados foi o que o Mundial significou para o povo: os postos de controlo militar e as barreiras que dividiam o país foram temporariamente abertos ou ignorados. Pessoas de diferentes áreas do país, religiões ou raças assistiram aos jogos juntos, e as armas fizeram menos barulho durante as semanas em que o país esteve em competição.
O legado desse Mundial perdurou na nação da Costa do Marfim. No ano seguinte ao Mundial, realizou-se uma partida importante no imaginário do país, um jogo de união, contra Madagascar. Drogba pediu para que o jogo fosse realizado em Bouaké, a capital rebelde no país.
Esse encontro funcionou como celebração do acordo de paz que tinha sido assinado nos dias anteriores entre as diferentes fações, num processo que tinha começado no apuramento da seleção para o Mundial, em 2005.
O jogo terminou com 5-0 para a equipa da casa, e nas bancadas, contou com os líderes políticas das duas fações, a ver o jogo, lado a lado, num símbolo de união importante nesse momento da história da Costa do Marfim.








