Bem-vindo ao Histórias do Mundial, a rúbrica do Fora de Jogo que conta um episódio marcante dos campeonatos do mundo por dia!
Do sonho em Estugarda ao regresso ao Mundial
A 16 de outubro de 1985, Portugal viveu uma das noites mais marcantes da sua história. Depois do célebre apelo de José Torres: “Deixem-me sonhar”, a Seleção Nacional venceu a República Federal da Alemanha por 1-0, em Estugarda, graças a um golo de Carlos Manuel. Vinte anos depois da campanha de 1966, Portugal regressava finalmente ao Campeonato do Mundo.
A qualificação foi celebrada como um feito histórico, mas a preparação para o Mundial revelou rapidamente sinais preocupantes. A exclusão de Manuel Fernandes, melhor marcador do campeonato, e de Jordão gerou polémica, enquanto José Torres defendia as suas escolhas. Pouco depois, um teste antidoping positivo afastou António Veloso da convocatória à última hora, sendo substituído por Bandeirinha.
Uma viagem atribulada e condições indignas
Nem a viagem para o México correu normalmente. A comitiva portuguesa percorreu um itinerário desgastante, passando por Lisboa, Frankfurt, Dallas, Cidade do México, Monterrey e, finalmente, Saltillo. Os jogadores chegaram exaustos ao local do estágio, onde encontraram instalações consideradas inadequadas para preparar uma competição da dimensão de um Campeonato do Mundo.
As dificuldades acumulavam-se diariamente. As condições de treino eram alvo de críticas constantes, a direção da Federação Portuguesa de Futebol permaneceu na Cidade do México, a mais de mil quilómetros da equipa, e a Seleção teve até dificuldades em encontrar adversários para jogos de preparação. Num dos episódios mais caricatos, Portugal realizou um treino frente a funcionários de bares e hotéis da cidade.
A greve que marcou para sempre o Mundial de 1986
A poucos dias da estreia, o ambiente explodiu. Os jogadores exigiram melhores prémios de jogo, aumento das ajudas de custo e uma percentagem das receitas publicitárias obtidas pela Federação. Sem acordo, recusaram treinar e iniciaram uma greve que rapidamente ganhou dimensão nacional.
Enquanto a direção federativa se mantinha distante, a crise agravava-se. O caso chegou à Assembleia da República, motivou intervenções do Governo e levou até o Presidente da República, Mário Soares, a apelar ao bom senso, embora reconhecendo legitimidade às reivindicações dos jogadores. O episódio tornou-se notícia internacional e colocou Portugal no centro das atenções pelos piores motivos.
As noites de Saltillo e uma imagem impossível de apagar
Durante os dias de maior tensão, os jogadores passaram a frequentar festas e convívios na cidade mexicana. O episódio das chamadas «chicas de Saltillo» tornou-se um dos símbolos daquele Mundial, depois de dezenas de mulheres locais terem participado em eventos organizados no hotel da Seleção. Até Bobby Robson, selecionador de Inglaterra, admitiu surpresa com o ambiente vivido do outro lado da estrada, onde Portugal estagiava.
A imagem da equipa deteriorou-se rapidamente e a contestação cresceu em Portugal. Entre críticas às condições oferecidas pela Federação e ao comportamento dos jogadores, a Seleção chegava ao Mundial envolvida numa crise institucional sem precedentes, que acabaria por marcar toda a campanha.
A vitória sobre Inglaterra não evitou o desastre
Apesar de toda a instabilidade, Portugal entrou da melhor forma na competição e venceu a Inglaterra por 1-0, graças a mais um golo de Carlos Manuel. O triunfo parecia anunciar uma recuperação inesperada, mas a grave lesão de Bento, sofrida num treino antes do encontro com a Polónia, retirou à equipa uma das suas principais referências.
Sem o experiente guarda-redes, Portugal perdeu frente à Polónia (0-1) e foi goleado por Marrocos (1-3), terminando no último lugar do Grupo F. A eliminação confirmou o fracasso desportivo e consolidou o «Caso Saltillo» como um dos capítulos mais negros da história do futebol português. Quatro décadas depois, continua a ser recordado como o exemplo de como problemas fora das quatro linhas podem comprometer um Mundial inteiro.










