Bem-vindo ao Histórias do Mundial, a rubrica do Fora de Jogo que recorda um dos momentos mais marcantes da história dos Campeonatos do Mundo.
A França que jogou à Sporting no Mundial
Sabias que a Seleção Francesa já jogou uma fase final do Campeonato do Mundo com as camisolas de um clube amador argentino? Hoje, enquanto os “Bleus” discutem uma vaga decisiva contra a Espanha, recuamos a 10 de junho de 1978 para recordar um dos momentos mais bizarros, insólitos e cómicos da história do futebol mundial.
No futebol moderno do Mundial 2026, todos os detalhes são planeados ao milímetro. No entanto, no Mundial de 1978, na Argentina, o caos logístico gerou uma imagem eterna: Michel Platini e a restante seleção francesa a jogar com uma camisola às riscas verdes e brancas, idêntica à do Sporting Clube de Portugal.
O erro de comunicação que gerou o caos em Mar del Plata
O cenário era o Estádio José María Minella, em Mar del Plata. França e Hungria defrontavam-se na última jornada da fase de grupos. Ambas as seleções já estavam matematicamente eliminadas do torneio, pelo que o jogo servia apenas para cumprir calendário.
Meses antes, a FIFA tinha enviado uma diretriz clara para evitar camisolas parecidas nas transmissões de televisão (que na altura ainda eram maioritariamente a preto e branco). A indicação dizia que a França deveria jogar com o seu equipamento alternativo (branco) para não colidir com o vermelho da Hungria.
O problema? A Federação Francesa de Futebol interpretou o documento ao contrário. O responsável pela logística gaulesa convenceu-se de que a Hungria jogaria de branco e que a França tinha de levar o seu azul tradicional.
Quando as duas equipas saltaram para o relvado, o choque foi geral: estavam 22 jogadores em campo vestidos de branco imaculado.
A solução inacreditável: Club Atlético Kimberley ao resgate
Sem telemóveis e com os satélites de transmissão internacional a cobrar fortunas por cada minuto de atraso, o árbitro brasileiro Arnaldo Cézar Coelho foi taxativo: “Assim não há jogo”. O equipamento azul dos franceses estava guardado em Buenos Aires, a uns impossíveis 400 quilómetros de distância.
A solução surgiu graças a uma escolta policial que foi enviada à pressa pelas ruas da cidade até à sede do clube local mais próximo: o Club Atlético Kimberley, uma equipa amadora da zona. Os dirigentes locais abriram o armazém e cederam um saco com as suas camisolas oficiais, que tinham riscas verticais verdes e brancas.
Números Trocados e Vitória Histórica
O jogo começou com 40 minutos de atraso e com uma estética visual bizarra:
- Os franceses usavam os calções azuis oficiais.
- As meias eram as vermelhas da seleção de França.
- A camisola era a listada do modesto Kimberley.
Como as camisolas do clube amador não tinham números pré-estampados, a organização teve de colar números de plástico nas costas dos atletas. O improviso foi tal que os números das camisolas não coincidiam com os números dos calções. O lendário Michel Platini, que usava o calção número 15, jogou os 90 minutos com o número 11 nas costas.
Apesar do aparato cómico, a França honrou o Kimberley e venceu a Hungria por 3-1. Foi a primeira e única vez na história dos Mundiais que uma seleção jogou uma fase final com o equipamento emprestado por um clube local.











