Primeiras exumações em lar religioso irlandês iniciaram-se esta semana, após uma década de denúncias
Kathleen, Mary e Joseph. Estes são os nomes das três primeiras crianças exumadas esta segunda-feira na cidade de Tuam, no oeste da Irlanda. Entre 1925 e 1960, 796 crianças morreram sob custódia das Irmãs do Bom Socorro e foram enterradas numa antiga fossa séptica, sem caixão, sem cruz, sem registo.
Mais de uma década após a revelação deste escândalo, as escavações arrancaram oficialmente, com o objectivo de identificar os restos mortais, recolher provas de ADN e garantir um enterro digno às vítimas.
Uma década de espera para honrar a dignidade negada
A luta por justiça começou em 2014, quando a historiadora Catherine Corless descobriu documentos que provavam as mortes no lar Santa Maria. Na altura, não havia qualquer registo de sepultamento, nem qualquer vestígio visível de cemitério. As suspeitas de uma vala comum num reservatório de esgotos antigo confirmaram-se, chocando a Irlanda e o mundo.
“Implorei: tirem esses bebés da fossa”, recorda Corless, que durante anos travou uma batalha solitária por reconhecimento. Só em 2022 foi aprovada uma lei que permitiu legalmente as escavações, e apenas em 2023 foi nomeada a equipa responsável.
Especialistas internacionais envolvidos no processo
As escavações, que deverão durar dois anos, contam com peritos da Colômbia, Espanha, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos. Até ao momento, cerca de 30 familiares forneceram amostras de ADN, mas o processo continuará nos próximos meses para maximizar a identificação dos restos mortais.
O trabalho não é apenas técnico. É também simbólico e profundamente emocional, como sublinhou Anna Corrigan, cuja mãe passou pelo lar e dois irmãos continuam desaparecidos. “Essas crianças tiveram os seus direitos humanos básicos negados em vida. Foram privadas de dignidade e respeito na sua morte”, afirmou.
Um sistema institucional de abusos e silêncios
Entre 1922 e 1998, cerca de 56 mil mulheres solteiras e 57 mil crianças passaram por 18 lares semelhantes na Irlanda, operados com o apoio do Estado e sob gestão da Igreja Católica. Nestes locais, as mães eram forçadas a dar à luz e separadas dos filhos, muitas vezes dados para adopção.
Em 2021, uma comissão de inquérito revelou níveis “alarmantes” de mortalidade infantil nas instituições. Segundo Catherine Corless, cerca de nove mil crianças morreram nesses lares.
A antiga instituição de Tuam foi demolida em 1972 para dar lugar a um conjunto habitacional. No entanto, a fossa séptica permaneceu, carregando em silêncio uma memória colectiva que só agora começa a ser desenterrada — literalmente.
O fim de um silêncio ensurdecedor
Apesar da lentidão do processo, familiares e activistas consideram que este é um passo fundamental para reparar uma parte negra da história recente da Irlanda.
“É algo que nunca pensei ver acontecer”, confessou Catherine Corless. Hoje, o trabalho que começou com arquivos esquecidos transforma-se numa missão de justiça. E cada corpo retirado daquela fossa representa um acto de memória, dignidade e, finalmente, reconhecimento.










