A MotoGP voltou a efetuar testes ao sistema de comunicação, que esteve longe de gerar consenso. Além de falhas, e ruídos, os pilotos voltam a questionar-se se vale a pena o risco, com Zarco a ser um dos mais críticos.
Depois de terminar a temporada de 2025, a MotoGP está novamente a tentar preparar uma revolução nas comunicações em pista, algo que já vem sendo referenciado há alguns anos. Inspirada no modelo da F1, a ideia é permitir — pela primeira vez no Mundial de motovelocidade — a comunicação em tempo real entre pilotos e boxes ou direção de corrida. Diferente do sistema de áudio intra-auricular utilizado na F1, o projeto da MotoGP aposta numa tecnologia de condução óssea, em que um pequeno altifalante encostado ao maxilar do piloto transmite vibrações sonoras diretamente aos ossos do crânio, contornando o tímpano.
O plano era introduzir comunicações de segurança em 2025 e, no futuro próximo, avançar para comunicações bidirecionais entre pilotos e equipas — o que poderia transformar a dinâmica da corrida e, segundo alguns, o espetáculo televisivo. Mas a implementação da tecnologia na MotoGP parece estar longe do ideal: até agora, os testes têm revelado várias imperfeições — e a receção dos pilotos está a ser bastante dividida.
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— Johann Zarco (@JohannZarco1) February 19, 2024
Zarco reage — e não poupa críticas
Johann Zarco foi, nas últimas semanas, uma das vozes mais críticas ao novo sistema. Após testar o rádio durante um ensaio em Valência, o piloto da LCR Honda foi duro nas palavras: para ele, o sistema é “praticamente inútil”. Zarco descreveu a experiência como um fracasso auditivo completo: as mensagens chegavam como ruído estático, praticamente inaudíveis quando a moto estava em aceleração. Só em zonas de baixa velocidade, como curvas lentas, a comunicação tinha alguma hipótese de ser ouvida — mas mesmo aí era pouco confiável.
Num tom forte, comentou: “É uma loucura estarmos tão distantes do objetivo.” Zarco adiantou também que, mesmo admitindo a ideia de rádio, preferiria um sistema mais parecido com o da F1 — um auricular intra-auricular, em vez da condução óssea. Ele referiu que o barulho do vento e o movimento do capacete tornam impossível receber mensagens com clareza. Apesar do seu desagrado, o francês recusou a ideia de que o sistema seja uma distração perigosa — o problema, na sua visão, não é a comunicação em si, mas a qualidade do áudio e a sua inconsistência.
Outros pilotos divididos: entre quem apoia e quem critica
Não são apenas Zarco a levantar dúvidas sobre a introdução da tecnologia na MotoGP — vários outros pilotos já manifestaram opiniões bastante diversas:
- O campeão Francesco Bagnaia classificou o rádio como “irritante e inseguro”. Para ele, o cabo longo e o facto de o sistema ocupar espaço no capacete são problemas reais. Bagnaia criticou a má funcionalidade do áudio e recusou usá-lo enquanto o sistema não for melhorado.
- Por outro lado, o sul-africano Brad Binder mostrou-se surpreendentemente otimista. Após testar a versão de condução óssea, afirmou que o sistema funcionou bem e que recebeu as mensagens com clareza, mesmo em retas a alta velocidade. Para Binder, o sistema parece promissor — embora questione se será realmente necessário.
- O veterano espanhol Rúben Xaus alertou para o facto de o piloto ter de controlar quando abrir a comunicação — criticando a ideia de mensagens automáticas em momentos de alta exigência, como curvas a mais de 250 km/h, por medo de causar distração.
- E o ex-campeão Fabio Quartararo também já admitiu que a ideia de rádio é boa — mas reconheceu que, nos testes, foi difícil ouvir mensagens com clareza devido ao ruído da mota. Mesmo assim, vê valor no futuro, desde que o sistema evolua.
Os principais problemas apontados — e os riscos reais
Com base nos testemunhos dos pilotos e nos relatórios dos testes, os problemas mais citados são:
- Estática e ruído excessivo, especialmente quando a moto está em aceleração. O vento e o barulho do motor tornam a receção quase impossível.
- Movimento do capacete: mesmo pequenas deslocações podem desalinhar o dispositivo de condução óssea, tornando a receção instável.
- Segurança e distracção: embora alguns pilotos não achem que o rádio seja uma distração direta, há receio de que abrir o canal de comunicação numa curva rápida possa reduzir a atenção e aumentar o risco de acidente.
- Desigualdade de eficácia entre pilotos: há quem escute bem (como Binder) e quem só ouça ruído (como Zarco ou Bagnaia) — o que levanta dúvidas sobre a consistência do sistema.
Esses fatores mostram que, no estado atual, usar rádio na MotoGP pode ser tão problemático quanto útil.
O dilema da MotoGP: tecnologia vs. segurança e clareza
A proposta de rádio na MotoGP vem com objetivos claros: aumentar a segurança (com avisos diretos da direção de corrida), melhorar a experiência dos espetadores e aproximar a categoria de outros campeonatos que já adotaram a comunicação em tempo real. Mas se a tecnologia não cumprir seu papel — ou pior, comprometer a atenção dos pilotos — as consequências podem ser graves. A condução de uma mota a mais de 300 km/h exige concentração máxima e reflexos matemáticos em milissegundos. Qualquer ruído inesperado, distração ou falha de comunicação pode ser fatal. Por isso, o sistema está a enfrentar resistência de parte significativa dos pilotos da MotoGP — e o feedback coletivo ainda é negativo.
E agora? O que falta para o rádio da MotoGP ser aprovado
Para que o sistema avance de teste para uso em corrida, parece claro que várias etapas ainda precisam ser ultrapassadas:
- Melhorar a fiabilidade do áudio, eliminando estática e garantindo clareza mesmo em alta velocidade.
- Garantir que os dispositivos se mantêm fixos no capacete, sem deslizamentos com vento ou vibração.
- Definir regras claras sobre quando usar o rádio — talvez restringir a mensagens de segurança ou emergências (e não comunicações de equipa), para evitar distrações.
- Testes extensivos em diferentes capacetes, estilos de pilotagem e velocidades, para garantir que funciona para todos, não apenas para alguns.
Sem isto, o sistema corre o risco de se tornar um “gadget falhado” em vez de um avanço real para a categoria.
Uma revolução técnica com muitos “ses” — e poucos consensos
A introdução de rádio na MotoGP tinha tudo para ser um passo natural, um avanço técnico e uma forma de modernizar a comunicação entre pilotos e equipas. Mas, pelas declarações recentes de Johann Zarco, Bagnaia, Quartararo, entre outros, o atual sistema está longe de cumprir as expectativas. A divisão de opiniões é grande: há quem aplauda a ideia, quem aceite a tecnologia apenas com melhorias — e quem rejeite por completo. No final, talvez a grande questão não seja se a MotoGP precisa de rádio, mas sim quando estará disponível um sistema que realmente funcione sem comprometer segurança ou rendimento. Até lá, o hábito dos pit-boards e das mensagens no painel permanece — e, para muitos pilotos, isso continua a bastar.











