Miguel Oliveira viveu um fim de semana em Portimão que ficou para a memória. Com os três primeiros pódios em três corridas, na segunda ronda do campeonato, o piloto português mostrou que tem ritmo para andar junto com os da frente. Contudo, há que olhar para o que se aproxima. A “Catedral da Velocidade” recebe a próxima prova do Mundial de Superbike e coloca Miguel Oliveira perante um dos circuitos mais emblemáticos — e exigentes — do motociclismo mundial.
Ronda dos Países Baixos no WSBK
A terceira ronda da temporada disputa-se entre 17 e 19 de abril no lendário TT Circuit Assen, uma pista que já atravessou por várias gerações e que continua a ser tratada no paddock como um lugar especial. É um daqueles traçados que ainda obrigam pilotos e motos a trabalhar em conjunto, sem grande margem para atalhos. E é precisamente aí que o próximo capítulo da adaptação de Miguel Oliveira à BMW pode ganhar ainda mais relevância. O WorldSBK confirma Assen como a Ronda 3 do calendário de 2026, enquanto o circuito continua a apresentar um dos traçados mais reconhecíveis da modalidade.
A ronda neerlandesa surge numa altura importante da época. Depois de ter sido o melhor representante da BMW em Portimão e de ter devolvido Portugal aos pódios do campeonato após 36 anos, Miguel Oliveira chega agora a uma pista com características bastante diferentes do Algarve.
Em Assen, o desafio não passa tanto pela montanha-russa física de elevações e travagens agressivas, mas antes por um desenho rápido, fluido e técnico, onde a confiança na frente da moto, a estabilidade nas mudanças de direção e a precisão em curva longa costumam separar os muito bons dos apenas competitivos. Tal facto, torna esta ronda particularmente interessante para perceber até onde pode ir a combinação entre Miguel Oliveira e a M 1000 RR nesta fase da temporada que ainda podemos considerar como inicial.

Vencedores do ano passado nos Países Baixos?
No WorldSBK, em 2025, houve três vencedores diferentes — um dado que demonstra na perfeição a imprevisibilidade da “Catedral da Velocidade”. Na Corrida 1, o vencedor foir Nicolò Bulega; na Superpole Race, o triunfo foi de Toprak Razgatlıoğlu, o atual campeão da modalidade e a correr agora na MotoGP (no lugar deixado, precisamente por Miguel Oliveira); e na Corrida 2, a vitória sorriu a Andrea Locatelli, que até conquistou ali a sua primeira vitória na categoria.
Porque é que Assen é chamada de “Catedral da Velocidade”?
No motociclismo, há alcunhas que soam forçadas e há outras que simplesmente colam, porque fazem sentido. “A Catedral da Velocidade” pertence claramente à segunda categoria. A própria pista assume essa identidade no seu discurso oficial e continua a apresentar-se como um dos espaços mais sagrados do motociclismo europeu.
O circuito está intimamente ligado ao famoso Dutch TT, uma das provas mais antigas e prestigiadas do mundo das duas rodas, e carrega consigo uma espécie de autoridade histórica que poucos autódromos conseguem reivindicar, sem parecerem pretensiosos. Mas a expressão não nasceu só da idade. Nasceu também do tipo de desafio que Assen oferece. Durante décadas, competir ali significou mostrar mais do que velocidade pura: significou ter finesse, leitura de pista e coragem em zonas onde a moto pede compromisso absoluto.
Uma história que começou nas estradas, muito antes do circuito atual
As origens de Assen recuam a 1925, quando se disputou a primeira edição do Dutch TT num traçado de 28,4 km em estrada aberta, passando por localidades como Rolde, Borger e Schoonloo. Era um circuito desenhado no mapa rural da região, com aquele romantismo perigoso que marcou tantas corridas do início do século XX.
A prova ganhou rapidamente estatuto internacional e, com o crescimento do evento, tornou-se evidente que o modelo de corrida em vias públicas tinha os seus limites. Em 1955, Assen deu então o passo decisivo: passou a contar com um circuito permanente construído de raiz, com 7,7 km, mantendo o espírito do traçado original, mas com condições muito mais adequadas para acolher competição de topo.

De 7,7 km ao traçado atual: o que mudou em Assen
Como aconteceu com tantos circuitos históricos, este circuito também foi mudando com o tempo. Questões de segurança, evolução das motos, exigências das transmissões televisivas e necessidades de infraestrutura levaram a várias revisões do traçado ao longo das décadas.
O circuito foi sendo encurtado de forma gradual entre os anos 1980 e 2000, até chegar à configuração moderna. Hoje, para o WorldSBK, e para Miguel Oliveira, Assen apresenta uma extensão oficial de 4,542 km, com 18 curvas — 12 para a direita e 6 para a esquerda — e uma reta da meta relativamente curta, com 300 metros. O que significa, na prática, que não é uma pista feita para “descansar”. Há pouco tempo morto e quase tudo se decide em ritmo, colocação e transição entre curvas.
O circuito que nunca saiu do MotoGP e continua central no motociclismo
Todavia, há um dado que ajuda a resumir o lugar de Assen no mapa do motociclismo mundial: o circuito neerlandês continua a ser a única pista presente de forma contínua no calendário do Mundial de Velocidade, desde 1949, ano inaugural do campeonato do mundo. É uma marca que quase funciona como certificado de património desportivo. Assen sobreviveu a gerações de motos, mudanças profundas nos regulamentos, transformações na segurança e alterações radicais no calendário. E continua lá. Hoje, além do MotoGP, onde Miguel Oliveira também correu, recebe também o WorldSBK, o British Superbike e outros eventos internacionais, reforçando a sua posição como uma das pistas mais completas e respeitadas da Europa.
O que faz de Assen uma pista tão especial para o WSBK?
No caso do WorldSBK, Assen tem uma espécie de personalidade própria. Não é uma pista onde se ganhe só com potência ou travagem tardia. É uma pista onde o piloto tem de fazer a moto “respirar” bem ao longo da volta. O traçado recompensa quem consegue manter velocidade de passagem em curva, usar bem a largura da pista e construir ritmo de forma limpa.
Isso costuma criar corridas muito interessantes porque, mesmo quando uma moto parece superior num determinado setor – como tem acontecido com a Ducati esta temporada, há sempre outra zona do circuito onde as diferenças podem voltar a equilibrar-se. Além disso, Assen costuma trazer outro ingrediente que nunca deve ser ignorado: o clima. A chuva ou, pelo menos, a ameaça dela, continua a ser uma variável recorrente. E num circuito tão sensível, uma mudança de condições pode alterar completamente o retrato competitivo de um fim de semana.
It was agony in Assen for Niccoló Bulega last time out… but it’s time to go again in Italy 🇮🇹 👀#ItalianWorldSBK 🇮🇹 #WorldSBK | Live on TNT Sports and Discovery+ this weekend 📺 pic.twitter.com/NKPq7O07qk
— TNT Sports Bikes (@bikesontnt) May 2, 2025
Porque é que Assen pode ser uma ronda importante para Miguel Oliveira
Depois de Portimão, a expectativa em torno de Miguel Oliveira aumentou naturalmente. O português saiu da ronda algarvia com três pódios, reforçou o entusiasmo da BMW e mostrou que a adaptação ao campeonato está a acontecer relativamente mais depressa do que muitos antecipavam. O circuito nos países baixos, oferece-lhe uma oportunidade diferente: provar que esse rendimento não depende apenas de contexto emocional ou de um circuito particularmente favorável e que ele conhece bem.
Se Portimão foi o cenário ideal para uma afirmação emocional e mediática de Miguel Oliveira, Assen é um excelente palco para a respetiva validação competitiva. É uma pista onde o piloto conta muito, onde a sensibilidade da frente é crítica e onde a leitura da moto em curva longa faz diferença real. E isso encaixa, em teoria, em várias das qualidades que sempre definiram Miguel Oliveira ao longo da carreira.
A BMW chega com razões para acreditar, mas também com trabalho por fazer
A ronda portuguesa mostrou uma BMW competitiva, mas ainda não totalmente pronta para discutir vitórias de forma consistente com a Ducati oficial. Em Portimão, Miguel Oliveira foi o melhor do resto, mas Nicolò Bulega e Iker Lecuona estiveram num plano superior, durante quase todo o fim de semana.
Ainda assim, o saldo foi francamente positivo para a estrutura alemã. Miguel Oliveira mostrou rapidez, consistência e capacidade para recolher informação útil desde cedo, até foi capaz de bater um recorde relativamente ao atual campeão em título, algo que a própria equipa valorizou muito no rescaldo da ronda anterior. E isso conta bastante numa temporada longa. Agora, porém, falta perceber se a BMW M 1000 RR consegue manter esse nível competitivo num circuito onde a fluidez do chassis e a estabilidade de trajetória pesam tanto quanto a tração ou a travagem.
Ponto de situação do campeonato
A classificação do campeonato ainda está a ganhar forma, mas já há sinais claros no topo. Depois da ronda inaugural na Austrália, Nicolò Bulega saiu como líder com 62 pontos, seguido por Axel Bassani com 42. Miguel Oliveira arrancou a época com 17 pontos e, entretanto, o seu forte desempenho em Portimão reforçou claramente a sua presença no grupo da frente, numa fase em que o campeonato começa a consolidar hierarquias. Para Miguel Oliveira, a terceira ronda surge como uma oportunidade muito concreta de continuar a somar pontos com consistência e consolidar-se entre os nomes mais relevantes deste início de época.
Championship Standings🏆
— WorldSBK (@WorldSBK) March 29, 2026
It's Ducati 1-2 as @LecuonaIker moves up now position and @nbulega's lead growing📈#PortugueseWorldSBK 🇵🇹 pic.twitter.com/IrWyobzNCn
Assen continua a ser um daqueles sítios onde uma boa corrida vale mais
Nem todos os circuitos envelhecem bem. Alguns ficam ultrapassados, outros tornam-se previsíveis e alguns perdem a identidade ao tentar adaptar-se a tudo. Assen, pelo contrário, conseguiu atravessar quase um século sem perder a sua razão de ser. Continua rápido, continua técnico e continua a premiar pilotos que sabem ler uma corrida para lá do cronómetro puro.
E para Miguel Oliveira, que chega a esta ronda com a confiança reforçada e a BMW a olhar para ele com crescente convicção, a “Catedral da Velocidade” pode ser bem mais do que apenas a próxima paragem do calendário. Pode ser o sítio certo para confirmar que o que aconteceu em Portimão não foi um momento isolado — foi o início de uma presença séria na luta da frente.











