Foi o homem que o lançou às “feras” e foi, também, o primeiro a segurá-lo quando o mundo parecia desabar. Paulo Bento, antigo treinador do Sporting e Selecionador Nacional, foi uma das figuras centrais na cerimónia de homenagem a Rui Patrício, realizada esta sexta-feira na Cidade do Futebol.
Num discurso marcado pela sinceridade e emoção, Bento recordou não apenas as qualidades técnicas do guardião que agora termina a carreira, mas sobretudo a sua força mental para suportar os momentos mais duros, incluindo a contestação dos próprios adeptos.
“Maus tratos” e Resiliência em Alvalade
Paulo Bento recusou “falsas modéstias” para reivindicar um papel crucial na carreira do “Marreco” (alcunha carinhosa do guardião): a teimosia em mantê-lo na baliza após os erros iniciais de juventude.
“Acredito que tivemos um bocadinho de mérito em não deixá-lo cair,” afirmou o técnico, recordando episódios dolorosos. “Não foi fácil em Manchester sofrer um golo (…) fruto da inexperiência dele. Não foi fácil deixar escorregar a bola pelas mãos num jogo com a U. Leiria em casa e levar com o pessoal atrás na Superior Sul.”
O treinador foi mais longe, lembrando que Patrício sofreu “maus tratos dentro de casa”, chegando a ser “assobiado e maltratado antes dos jogos começarem”. Para Bento, só alguém com uma dimensão humana gigante poderia ter resistido: “É a parte mental que realço mais no Rui.”
A Decisão no Autocarro
Paulo Bento partilhou um episódio de bastidores decisivo, ocorrido após uma derrota em Setúbal onde Patrício largou uma bola que resultou em golo adversário.
“Lembro-me de ter chegado ao autocarro e ter dito à minha equipa técnica: ‘não sei os 10 que vão jogar a seguir, mas sei que o Rui vai continuar a jogar’. Esse é o bocadinho de mérito que temos,” confidenciou.
A Estreia e o Penálti na Madeira
O técnico recordou ainda o momento em que percebeu que estava diante de um predestinado, na temporada 2006/07, quando lançou o então júnior num jogo contra o Marítimo, na Madeira, para poupar Ricardo e Tiago.
“Ganhámos esse jogo por 1-0 e o Rui defende um penálti. É algo que fica logo marcado”, rememorou.
Para Paulo Bento, o lançamento de Patrício era inevitável (“Qualquer um ia fazê-lo, era uma questão de tempo”), mas o orgulho maior reside na amizade construída: “É isso que me dá um prazer enorme ter orientado o Rui e de ser amigo dele.”









