Marco Silva foi apresentado na passada sexta-feira como o sexto treinador da era Rui Costa no Benfica. Desde que assumiu a presidência dos encarnados, em outubro de 2021, o antigo internacional português já trabalhou com Jorge Jesus, Nélson Veríssimo, Roger Schmidt, Bruno Lage e José Mourinho. Quase cinco anos depois, a estabilidade continua a ser um dos temas mais debatidos entre os adeptos e apenas um destes treinadores conseguiu conduzir o clube ao título de campeão nacional.
De Jesus a Schmidt: o único que levantou o campeonato
Jorge Jesus era o treinador do Benfica quando Rui Costa chegou à presidência, mas a sua segunda passagem pela Luz terminou poucos meses depois. Em 30 jogos nessa temporada somou 20 vitórias, cinco empates e cinco derrotas, antes de abandonar o cargo por divergências com o plantel. Para terminar a época surgiu Nélson Veríssimo, promovido interinamente. O técnico orientou 25 jogos da equipa principal, conquistando 12 vitórias, seis empates e sete derrotas entre campeonato e Liga dos Campeões, sem conseguir recolocar o Benfica na luta pelos principais objetivos.
A aposta seguinte foi Roger Schmidt e os resultados apareceram de imediato. Na primeira temporada conquistou o campeonato, alcançou os quartos de final da Liga dos Campeões e terminou 2022/23 com impressionantes 42 vitórias em 55 jogos. No total da passagem pela Luz, o alemão somou 78 triunfos em 111 partidas, uma percentagem de vitórias superior a 70 por cento, tornando-se não só o treinador mais vencedor da era Rui Costa, mas também o único a conquistar o campeonato.
Os regressos que não devolveram o Benfica ao topo
Após a saída de Schmidt, Rui Costa voltou a procurar soluções em nomes que já conheciam a casa. Bruno Lage regressou ao Benfica com a missão de repetir o sucesso da primeira passagem, mas ficou longe desse cenário. Apesar de ter registado números interessantes (45 vitórias, 10 empates e 11 derrotas em 66 jogos, o equivalente a uma taxa de vitórias de 68,2 por cento) não conseguiu devolver os encarnados aos títulos mais importantes.
O mesmo aconteceu com José Mourinho. O treinador regressou rodeado de enorme expectativa e protagonizou uma das apostas mais mediáticas da presidência de Rui Costa. No entanto, a segunda passagem terminou sem títulos. Mourinho somou 29 vitórias, 12 empates e 10 derrotas em 51 encontros, registando a percentagem de vitórias mais baixa da era Rui Costa, com 56,9 por cento. Apesar de ter terminado o campeonato sem qualquer derrota (20 vitórias e 10 empates em 30 jornadas) a equipa perdeu terreno nos momentos decisivos da época.
Entre críticas públicas ao rendimento de alguns jogadores, dúvidas sobre a renovação contratual e uma reta final de época marcada pela perda do segundo lugar, a relação entre treinador e clube distanciou-se. A proposta de renovação chegou a existir, mas o interesse do Real Madrid acabou por ser decisivo para a saída do técnico.
Marco Silva recebe uma missão diferente
É neste contexto que surge Marco Silva. Curiosamente, tal como Jorge Jesus, também passou pelo Sporting antes de aceitar o convite do Benfica. O técnico chega depois de cinco temporadas ao serviço do Fulham, onde realizou 229 jogos, conquistou 100 vitórias e levou o clube ao título do Championship logo na primeira época. Nas quatro temporadas seguintes consolidou os londrinos na Premier League, terminando 2025/26 no 11.º lugar, apenas três posições abaixo dos lugares de acesso às competições europeias.
Mais do que conquistar títulos, Marco Silva terá agora a missão de devolver estabilidade ao banco do Benfica Os números mostram uma realidade difícil de ignorar: em menos de cinco anos, Rui Costa já trabalhou com seis treinadores diferentes. Houve regressos, apostas estrangeiras, um interino promovido da casa e até o regresso de José Mourinho. No meio de tantas mudanças, apenas Roger Schmidt conseguiu levantar o campeonato. Agora, cabe a Marco Silva ultrapassar um desafio: transformar uma sucessão de projetos curtos num ciclo verdadeiramente vencedor.
O preço da instabilidade
A constante mudança de treinadores não teve apenas impacto desportivo. Ao longo dos últimos anos, as sucessivas alterações no comando técnico obrigaram também o Benfica a suportar custos significativos. O caso mais pesado foi o de Roger Schmidt, cujo despedimento custou cerca de 8,7 milhões de euros à SAD encarnada. Ainda assim, esse valor ficou abaixo da totalidade dos salários que o técnico alemão teria direito a receber até ao final do vínculo.
Também a saída de Jorge Jesus teve um impacto financeiro considerável. Quando abandonou o clube em dezembro de 2021, ficou acordado que continuaria a receber o salário até ao final do contrato ou até encontrar novo clube. Com um vencimento anual na ordem dos seis milhões de euros brutos, o treinador tinha direito a cerca de três milhões de euros referentes aos últimos seis meses de contrato. O Benfica acabou por suportar os pagamentos entre janeiro e maio de 2022, altura em que Jesus assinou pelo Fenerbahçe e cessou a obrigação dos encarnados.
Os restantes processos foram menos pesados para os cofres da Luz. Nélson Veríssimo terminou funções no final da temporada 2021/22, numa saída natural após assumir interinamente a equipa principal. Já Bruno Lage recusou a cláusula de confidencialidade associada à rescisão e prescindiu da quase totalidade da indemnização prevista, recebendo apenas cerca de 100 mil euros, muito longe dos dois milhões de euros inicialmente contemplados no contrato.
No sentido inverso, a saída de José Mourinho acabou por representar uma importante entrada de dinheiro. O Real Madrid irá pagar cerca de 15 milhões de euros para garantir o treinador português, permitindo ao Benfica recuperar uma parte significativa dos custos acumulados com as mudanças no banco. Somando os cerca de 8,7 milhões de euros pagos a Roger Schmidt, os aproximadamente 3 milhões relativos à saída de Jorge Jesus e os 100 mil euros recebidos por Bruno Lage, o Benfica desembolsou aproximadamente 12 milhões de euros em indemnizações e compensações. Feitas as contas, o encaixe proporcionado por Mourinho deixa um saldo positivo na ordem dos 3 milhões de euros, um cenário pouco habitual num período marcado por tantas mudanças no comando técnico.










