Investigação sobre quatro temporadas conclui que o impacto surgiu logo após a introdução da tecnologia e manteve-se nos anos seguintes
A introdução do videoárbitro na Liga Betclic poderá ter alterado mais do que a forma como os lances são decididos. Um estudo desenvolvido na NOVA IMS conclui que, após a chegada do VAR ao principal escalão do futebol português, o tempo útil de jogo sofreu uma redução entre um e dois minutos por encontro, uma diferença que se manteve estável nas épocas analisadas.
O trabalho incidiu sobre 1.616 partidas da I e da II Liga disputadas entre 2015/16 e 2018/19. O objetivo passou por comparar as duas temporadas anteriores à implementação do VAR com as duas primeiras em que a tecnologia esteve em funcionamento na Liga Betclic. Na II Liga, utilizada como termo de comparação por apenas ter adotado o sistema em 2023/24, não foram identificadas alterações relevantes no tempo efetivo de jogo.
Os dados mostram que a percentagem de tempo útil na I Liga passou de 52,77%, equivalente a 47 minutos e 30 segundos, para 51,46%, ou seja, 46 minutos e 19 segundos. A investigação estima uma quebra entre um e dois minutos por partida, resultado obtido através da metodologia econométrica Difference-in-Differences, utilizada para isolar o impacto do VAR de outros fatores que influenciam o desenrolar dos encontros.
Bruno Damásio explicou a lógica seguida pela equipa de investigação: “O que nós fizemos foi reconstruir uma Primeira Liga, digamos, fictícia, que é a Primeira Liga na ausência de vídeoárbitro. Tendo essa Primeira Liga com o vídeoárbitro e tendo esse contrafactual, conseguimos calcular essa diferença de forma credível.” O investigador acrescentou ainda que o efeito surgiu imediatamente após a implementação da tecnologia e não desapareceu com o passar do tempo: “Dentro da janela que analisámos não parece ter havido qualquer habituação. Seria de esperar que este choque no primeiro ano se diluísse, mas não foi o que aconteceu. De facto, o efeito aparece logo na primeira meia época com o VAR e mantém-se inalterado.”
Para o docente, a diferença pode parecer reduzida quando analisada jogo a jogo, mas ganha outra dimensão ao longo de uma temporada completa. “Cada equipa faz 34 jogos. Um ou dois minutos por jogo dá entre meia hora e uma hora de bola perdida ao longo de uma temporada. Um jogo tem cerca de 45 minutos de bola viva, assim cada equipa perde entre três quartos de um jogo e um jogo e meio. Um clube que joga 34 jogos, no fundo, joga 33.” Na mesma linha, lembrou que “um minuto seja ‘imperpercetível para quem está na bancada’, o acumulado de ’10 horas por época, numa indústria que vende exatamente futebol jogado, tem um impacto grande’.”
Além das conclusões do estudo, Bruno Damásio defendeu que o tempo efetivo de jogo deveria assumir um papel central na avaliação das competições. “O tempo efetivo de jogo devia ser o indicador oficial de alguma competição, divulgado jornada por jornada, equipa por equipa. Neste momento discute-se isto em Portugal quase sem números, à base de impressões”, afirmou, recordando o princípio de que “o que não se mede, não se gere”.
O investigador apontou ainda possíveis caminhos para reduzir as interrupções, destacando experiências promovidas pela IFAB no futebol inglês, como limites mais apertados para reposições de bola ou regras específicas durante a assistência a guarda-redes. Defendeu igualmente uma separação entre decisões objetivas e lances de interpretação: “Metemos dentro do mesmo sistema de decisão dois tipos que nada têm a ver um com o outro. Há decisões que são factuais e binárias – a bola entrou ou não, fora de jogo -, onde a resposta é verdadeira e verificável. Para estas, eu creio que o VAR é uma ferramenta errada. Não é preciso parar o jogo, chamar o árbitro ao monitor e esperar um minuto. Isso resolve-se com sensores, em segundos. Noutras decisões, de juízo – se foi penálti ou não -, a tecnologia não resolve da mesma forma.”











