Mais de um quarto de século depois de ter abandonado as estradas, Djamolidine Abdoujaparov continua convencido de que a sua saída do ciclismo profissional não foi um processo natural, mas sim um plano orquestrado.
Numa entrevista exclusiva e sem filtros ao jornal italiano La Gazzetta dello Sport, o antigo velocista uzbeque reviveu as polémicas que ditaram o fim da sua carreira em 1997 e lançou graves acusações contra as estruturas do pelotão da época.
A teoria da conspiração e o “massagista fantasma”
Abdoujaparov recorda 1997 como o ano em que se tornou “persona non grata” na sua própria equipa. Apesar de possuir um contrato financeiramente sólido, o ciclista afirma que as pressões internas eram insustentáveis.
“Um diretor desportivo não me queria. Fez tudo o que pôde para me excluir e até deixaram de me pagar”, revela o antigo atleta.
Sobre o controlo antidoping positivo que manchou o seu final de carreira, o uzbeque descreve um cenário de cilada: “Um massagista deu-me um produto que tomei sem pensar. Dei positivo, mas o mais estranho é que o staff da equipa já sabia do resultado um dia antes de ele se tornar oficial. Quando tentei confrontar a pessoa que me deu o produto, ela tinha desaparecido. Simplesmente evaporou-se”.
Um lobo solitário no reino dos “comboios”
Conhecido pelo seu estilo de sprint agressivo, desordenado e feroz — que lhe valeu a alcunha de “Terror de Tashkent” — Abdoujaparov olha para o ciclismo moderno com nostalgia e algum desdém. Para ele, a pureza do velocista solitário morreu.
- O contraste com Cipollini: “Agora toda a gente tem um ‘comboio’ de lançadores. Até o [Mario] Cipollini já tinha um na altura. Eu nunca tive nada disso. Fazia tudo sozinho, lutando por cada centímetro.”
- A defesa do seu estilo: Apesar da fama de perigoso, o uzbeque é taxativo: “Nunca provoquei a queda de ninguém por malícia. Nunca fui injusto em estrada.”
A verdade sobre a queda nos Campos Elíseos (1991)
Abdoujaparov aproveitou ainda a entrevista para desmitificar uma das imagens mais famosas da história do Tour de France: a sua queda brutal na etapa final em Paris, em 1991.
“Não foi o contentor da Coca-Cola que me deitou abaixo”, esclarece. “Moveram uma barreira cerca de um metro para deixar passar os carros da polícia e dos diretores. Eu vinha lançado e bati de frente porque a barreira estava no meu caminho. Foi um erro de organização, não um obstáculo publicitário.”
Uma vida simples longe do ruído
Hoje, aos 61 anos e residente em Itália, Djamolidine Abdoujaparov leva uma vida pacata, trocando as estradas pelo BTT e as luzes da ribalta pela simplicidade.
Com um palmarés que conta com 9 vitórias de etapa no Tour, 7 na Vuelta e 1 no Giro, além da conquista da classificação por pontos (camisola verde/ciclamino) nas grandes voltas, o homem que assombrou os sprints dos anos 90 garante estar em paz: “Gosto da vida simples e estou contente com o que tenho”.







