Ligados à TV por 50 euros por ano, milhões de utilizadores fogem às plataformas legais e colocam em risco os direitos televisivos e a saúde financeira dos clubes franceses
A Ligue 1 vive um dos períodos mais delicados da sua história recente, com uma quebra drástica nas receitas de direitos televisivos nos últimos cinco anos. Entre os vários fatores identificados, a pirataria instalada no mercado francês tornou se um dos principais motivos de preocupação da LFP, numa realidade que já se estende também a outros países europeus, incluindo Espanha.
Pirataria em alta e contratos em colapso
Na última temporada, o fenómeno atingiu um ponto crítico. A entrada da DAZN em França, com um pacote de oito jogos da Ligue 1 por 40 euros mensais, não conseguiu captar o número de subscritores desejado e acabou por agravar a crise.
A plataforma britânica não chegou a ultrapassar os 700 mil assinantes e acabou por rescindir o contrato, mediante o pagamento de uma indemnização de 85 milhões de euros. O modelo revelou se insustentável num contexto em que uma parte significativa do público já tinha migrado para soluções ilegais muito mais baratas.
“Box” pré configurada, milhares de canais e acesso total
Perante o cenário de quebra de receitas, a DAZN encomendou um estudo independente para avaliar o impacto real da pirataria. Um dos especialistas envolvidos, Philippe Dewost, explicou ao jornal francês L’Équipe a simplicidade do esquema.
O utilizador adquire um dispositivo junto de um vendedor ou intermediário, paga em dinheiro, fornece o número de telefone e recebe uma “Box” já configurada. Depois, basta ligá la à televisão e à internet. O acesso é feito com utilizador e palavra passe e o contacto telefónico serve para renovar o serviço ao fim de cerca de onze meses.
Segundo o estudo, terão sido vendidos em 2025 entre 8 e 9 milhões de descodificadores ilegais no mercado francês. Estes dispositivos dão acesso a mais de 10 mil canais, incluindo praticamente todas as ligas e competições desportivas, além de catálogos completos de filmes e séries de várias plataformas de streaming.
50 euros por ano contra 85 euros por mês
O desequilíbrio económico é evidente. O acesso ilegal custa cerca de 50 euros por ano, preço altamente competitivo quando comparado com os aproximadamente 85 euros mensais que um consumidor francês teria de pagar para reunir legalmente todos os pacotes desportivos disponíveis no mercado.
As perdas estimadas rondam os 400 milhões de euros, valor que, de forma simbólica e preocupante, coincide com o montante que a DAZN se tinha comprometido a investir nos direitos televisivos da Ligue 1 ao longo de cinco temporadas.
LFP pressionada e clubes em alerta máximo
A Liga Francesa de Futebol tem sido incapaz, até ao momento, de travar de forma eficaz o crescimento da pirataria. A erosão das receitas televisivas ameaça diretamente a sustentabilidade dos clubes, sobretudo dos emblemas de média e pequena dimensão, fortemente dependentes da redistribuição destes valores.
A perda de receitas fragiliza não só o investimento em plantéis competitivos, como também a capacidade de retenção de talentos e a própria atratividade internacional da Ligue 1, numa altura em que os principais campeonatos europeus disputam cada vez mais o mercado global de audiências.
Problema francês com reflexos europeus
Embora o caso francês seja dos mais graves, a tendência é partilhada noutros mercados europeus, entre eles o espanhol. O modelo de descodificadores ilegais com “tudo incluído” ganhou escala, tirando partido da facilidade tecnológica, da ausência de literacia digital sobre riscos legais e de uma perceção generalizada de “impunidade” entre utilizadores.
A batalha contra a pirataria coloca assim um desafio de fundo às ligas, federações, operadores e governos. França surge na linha da frente desta crise, com a Ligue 1 a transformar se num caso de estudo sobre até onde pode ir o impacto económico do consumo ilegal de conteúdos desportivos.









