O processo disciplinar que envolvia Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), foi arquivado pelo Conselho de Justiça. No entanto, o relatório final da investigação, agora tornado público, veio revelar novos detalhes sobre uma das maiores polémicas da arbitragem portuguesa dos últimos anos, incluindo suspeitas relacionadas com nomeações de árbitros, mensagens enviadas a Hélder Malheiro e uma viagem financiada pela Macron.
A investigação teve origem nas acusações feitas por Duarte Gomes, antigo Diretor Técnico Nacional da Arbitragem, aquando da sua demissão. No e-mail enviado ao presidente do Conselho de Arbitragem, com conhecimento aos restantes membros do organismo, Duarte Gomes apontava suspeitas sobre alegadas nomeações de árbitros para jogos decisivos da reta final da Liga 2025/26 e sobre um contacto entre Luciano Gonçalves e o árbitro Hélder Malheiro.
Nomeações antecipadas estiveram sob investigação
Um dos pontos centrais do relatório incidiu sobre a alegada divulgação antecipada das nomeações para os encontros Moreirense-Estrela da Amadora e Estrela da Amadora-Famalicão, disputados nas jornadas 32 e 33 da Liga.
Segundo o documento, ficou provado que o antigo árbitro assistente Pedro Garcia informou Hélder Malheiro, através de WhatsApp, de que seria o árbitro do encontro entre Moreirense e Estrela da Amadora vários dias antes da divulgação oficial.
Ainda assim, o Conselho de Justiça concluiu que não foi possível demonstrar que essa informação tivesse sido transmitida por Luciano Gonçalves.
O presidente do Conselho de Arbitragem garantiu durante o processo que nunca revelou antecipadamente qualquer nomeação, enquanto Pedro Garcia negou manter contactos recentes com Luciano Gonçalves.
A reunião com o Estrela da Amadora
O relatório confirma também que Luciano Gonçalves participou numa reunião na Cidade do Futebol com o presidente da SAD do Estrela da Amadora, Paulo Lopo, na presença de Duarte Gomes e de Bruno Marques, responsável pelo VAR.
Durante esse encontro, Paulo Lopo terá manifestado preocupação com as arbitragens na reta final do campeonato.
Segundo Luciano Gonçalves, respondeu apenas que todas as equipas envolvidas na luta pela permanência, bem como as que disputavam os lugares europeus, seriam dirigidas pelos árbitros mais experientes ou internacionais.
O instrutor considera que esta explicação ajuda a justificar a nomeação de Hélder Malheiro para um dos jogos em causa.
A mensagem enviada a Hélder Malheiro continua a levantar dúvidas
O episódio mais sensível do processo continua a ser a mensagem enviada por Luciano Gonçalves ao árbitro Hélder Malheiro, já depois de este ter sido informado de que iria terminar a carreira por ter atingido o limite de idade.
Segundo o relatório, Pedro Garcia terá telefonado previamente ao árbitro para lhe dizer:
“Eu nunca te pedi nada e não te vou pedir nada, mas quero que saibas que, se o Estrela da Amadora ganhar este jogo, tu para o ano continuas na primeira divisão.”
Perante a incredulidade de Hélder Malheiro, Pedro Garcia terá sugerido que contactasse Luciano Gonçalves.
Pouco depois, o árbitro recebeu uma mensagem do presidente do Conselho de Arbitragem:
“Bom dia, amigo. Sim, é verdade, mas por favor, por favor mesmo.”
A mensagem acabou por ser apagada, mas foi confirmada por Luciano Gonçalves, por Hélder Malheiro e pela esposa do árbitro, Ana Ribeiro, funcionária da Federação Portuguesa de Futebol.
Luciano Gonçalves explicou que a conversa dizia apenas respeito ao desejo de Hélder Malheiro terminar a carreira arbitrando a final da Taça de Portugal, prática que afirmou ser habitual para árbitros em fim de carreira.
Apesar de reconhecer que essa explicação não corresponde totalmente ao contexto da mensagem, o Conselho de Justiça concluiu que não existe prova suficiente para sustentar que estivesse a ser prometido um prolongamento da carreira mediante o resultado do encontro do Estrela da Amadora.
Conselho de Justiça aponta limitações na investigação
O relatório sublinha que a investigação ficou limitada pelos meios de prova legalmente admissíveis em processos disciplinares.
O Conselho de Justiça recorda que não pode recorrer a escutas telefónicas, perícias aos telemóveis ou acesso aos registos completos de comunicações privadas, instrumentos reservados aos processos criminais.
Segundo o documento, apenas esses mecanismos poderiam esclarecer definitivamente a origem das alegadas fugas de informação e o verdadeiro significado das mensagens trocadas entre os intervenientes.
Viagem à Macron também esteve sob análise
Durante o processo surgiu ainda outra suspeita relacionada com a adjudicação do contrato de fornecimento de equipamentos de arbitragem à Macron.
O relatório confirma que Luciano Gonçalves viajou para Itália acompanhado por Mauro Quaresma e Nuno Mendes, numa deslocação suportada pela empresa, depois de um convite feito pelo representante da marca durante uma reunião na Cidade do Futebol.
Ainda assim, o Conselho de Justiça concluiu que não foi encontrada qualquer prova de que essa viagem tenha influenciado a adjudicação do contrato.
O relatório refere que a Macron apresentou a proposta economicamente mais vantajosa entre as empresas consultadas, justificando assim a decisão tomada pela Federação Portuguesa de Futebol.
Processo termina sem sanções
Depois da análise de todos os elementos recolhidos, o Conselho de Justiça concluiu que não existiam indícios suficientes para sustentar qualquer infração disciplinar por parte de Luciano Gonçalves.
O processo acabou, por isso, arquivado, embora o relatório agora divulgado revele vários bastidores e esclareça algumas das suspeitas que marcaram os últimos meses da arbitragem portuguesa.











