Luís Vaz Fernandes acusa águias de reação “superficial”
A resposta do Benfica às acusações de racismo envolvendo o jogador Gianluca Prestianni, no encontro frente ao Real Madrid para a Liga dos Campeões, foi considerada insuficiente e reveladora de “falta de compreensão do que é o racismo” por Luís Vaz Fernandes, responsável pela comunicação de organizações não-governamentais antirracismo sediadas em Inglaterra.
Radicado no Reino Unido há cinco anos, após ter exercido jornalismo em Portugal, o comunicador criticou a reação “superficial” do clube da Luz, que “apoia e acredita plenamente na versão apresentada pelo jogador Gianluca Prestianni”.
Segundo Luís Vaz Fernandes, “Ao pôr-se ao lado de alguém que está a ser acusado de racismo, o Benfica mostra que não está preparado para compreender ainda os debates sociais. E reflete muito o que se passa no país. A questão superficial nota-se, por exemplo, quando o Benfica diz que o melhor jogador de sempre no clube foi o Eusébio ou que tem jogadores negros. Parece quase aquela máxima: “Até tenho um amigo que é negro, portanto não sou racista”. Isso mostra uma falta de compreensão do que é o racismo. E mostra falta de sensibilidade”.
Luís Vaz Fernandes, considera que às águias não se colocaram “ao lado de um grupo” – a população portuguesa com origem africana – que não tem ainda “muito espaço” e “grande voz” no país”.
“É o equivalente à ideia de dizer ‘tenho amigos negros, logo não sou racista’. Isso evidencia falta de sensibilidade e desconhecimento sobre o que realmente significa o racismo estrutural”, afirmou à agência Lusa.
Na sua perspetiva, o clube deveria ter assumido uma posição de maior proximidade com a comunidade portuguesa de origem africana, que considera continuar a ter pouca representatividade e voz pública em Portugal, apesar de sinais recentes de maior diversidade em determinados setores profissionais e mediáticos.
Luís Vaz Fernandes defende que as instituições portuguesas continuam a evitar discussões mais profundas sobre questões como a herança colonial e o papel da população negra na identidade nacional. Para o comunicador, sempre que surgem episódios públicos de racismo, a resposta tende a ser superficial e desprovida de reflexão histórica e social.
O responsável sublinhou ainda que o fenómeno não se limita ao desporto, considerando que o país, no seu todo, revela dificuldades em debater o tema de forma consistente. Criticou também o espaço concedido por canais televisivos a comentadores que, no seu entender, expressam posições reveladoras de preconceitos básicos.
De acordo com o próprio, a imprensa desportiva britânica reagiu com surpresa às declarações de intervenientes portugueses, incluindo as de José Mourinho, questionando como é possível que, em 2026, determinadas afirmações sejam transmitidas em horário nobre num país da Europa Ocidental.
Autor do documentário em produção “Fragmentos de um Portugal Negro”, centrado na presença histórica da população negra em território português desde o século XV, Luís Vaz Fernandes considera que, ao contrário do Reino Unido, Portugal tem adiado um debate aprofundado sobre o seu passado imperial e colonial.
O caso remonta ao jogo da primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, disputado na terça-feira, que terminou com a vitória do Real Madrid por 1-0. Após marcar o único golo da partida, Vinícius Júnior terá sido alegadamente alvo de insultos racistas por parte de Gianluca Prestianni.
O árbitro francês François Letexier interrompeu o encontro e acionou o protocolo antirracismo, tendo o jogo sido retomado cerca de dez minutos depois.
Entretanto, o Benfica confirmou a abertura de um processo interno relativamente a adeptos que terão imitado sons de macaco nas bancadas do Estádio da Luz durante o encontro. Caso sejam identificados como sócios do clube, os envolvidos poderão enfrentar a expulsão.









