A gimnasta mais condecorada da história explicou à revista People por que decidiu operar o peito, corrigir as olheiras e reconstruir o lóbulo da orelha, defendendo o direito das mulheres a escolher o que fazem com o próprio corpo
Uma campeã olímpica a falar de bisturi, inseguranças e autoaceitação
Simone Biles, 28 anos, múltipla campeã olímpica e mundial de ginástica, abriu o jogo sobre as cirurgias plásticas a que se submeteu e sobre a pressão estética que recai de forma particular sobre as mulheres atletas. Em entrevista à revista People, a norte-americana explicou as razões para ter feito três intervenções estéticas e assumiu que quis ser transparente para que outras jovens se possam identificar com a sua experiência.
A ginasta já tinha revelado num vídeo no TikTok que se submetera a três cirurgias plásticas, deixando no ar que duas delas seriam difíceis de adivinhar. Agora, detalhou tudo: aumento mamário, blefaroplastia inferior para corrigir as chamadas “bolsas debaixo dos olhos” e reparação do lóbulo de uma orelha, danificado depois de um enganchão com um brinco.
“Trata-se de sentir-te bem contigo própria”
Sobre o aumento do peito, Simone Biles mostrou-se direta e sem dramatizações. «Bem, obviamente dá para perceber pelos seios», brincou, antes de explicar o que a motivou.
«Trata-se simplesmente de sentir-te bem contigo própria e de te amares, e sempre fui aberta sobre isso. Não é que eu não gostasse de como parecia ou de como me sentia. É só que agora sinto isso um pouco mais, porque vivo neste corpo, estou muito habituada a ele», afirmou.
A campeã olímpica sublinhou que a decisão foi pessoal e não uma tentativa de corresponder a um padrão externo. «Enquanto te ames a ti mesma, isso é a única coisa que realmente importa», reforçou.
Olheiras hereditárias e um lóbulo rasgado
Simone Biles revelou ainda que se submeteu a uma blefaroplastia inferior para corrigir as olheiras profundas, algo que descreveu como um traço de família. «Tenho blefaroplastia inferior porque a minha família e eu temos aquilo a que chamo as ‘bolsas dos olhos Biles’. Sempre as tivemos, é hereditário, por isso era um grande defeito para mim», explicou.
A ginasta lembra que, em sessões fotográficas, o tema surgia recorrentemente. «Sempre que ia a uma sessão de fotos, perguntavam: “Podemos pôr-te umas tiras corretoras?”. Eu pensava: ‘Dormir 12 horas não vai tirar isto, é hereditário’. Por isso era algo que queria resolver», contou.
A terceira intervenção foi para reparar o lóbulo de uma orelha, depois de um brinco se ter prendido e rasgado a zona. Mais do que um capricho, Biles assumiu que se tratou também de uma questão funcional e de conforto.
Transparência para combater a ilusão das redes sociais
Simone Biles fez questão de explicar que a decisão de falar abertamente sobre as cirurgias não teve que ver apenas com curiosidade pública, mas com uma tentativa de desmontar expectativas irreais alimentadas pelas redes sociais.
«Acho que isso mostra às jovens que elas têm direito às suas próprias decisões, sejam elas quais forem, e que isso não lhes deve causar vergonha», afirmou. «Hoje em dia, com as redes sociais, vês toda a gente e pensas: ‘Meu Deus, como é que podem estar tão perfeitos?’. As redes sociais não são reais, por isso tento ser o mais transparente possível.»
A ginasta recordou ainda outra experiência estética que correu menos bem. «No meu 27.º aniversário fiz botox, e a verdade é que não resultou para mim. Não gostei, fiquei com uma sobrancelha estranha, toda a gente me perguntava o que era aquilo», contou, usando o episódio como exemplo de que nem tudo o que é tendência é necessariamente adequado.
«As mulheres atletas são julgadas pelo que fazem e pelo que parecem»
Biles aproveitou a entrevista para criticar a forma como as mulheres no desporto são avaliadas, muitas vezes, em função da aparência e não apenas do rendimento competitivo.
«Nós, mulheres atletas, somos julgadas não só pelo que fazemos, mas também por como parecemos. E isso pode ser esgotante», desabafou. No caso dela, além da pressão para manter um nível desportivo quase inatingível, há um escrutínio permanente sobre o corpo, o rosto e a vida privada.
A ginasta admitiu que os comentários online já a afetaram mais do que hoje. «A internet pode ser brutal. Aprendi a lidar com os comentários com mais calma. Antes afetavam-me muito. Agora escolho concentrar-me no que me faz bem», disse.
Um exemplo de vulnerabilidade num mundo obcecado pela imagem
Ao assumir publicamente três cirurgias plásticas, um procedimento de botox falhado e as próprias inseguranças sobre a imagem, Simone Biles afasta-se do discurso habitual de perfeição sem esforço que domina grande parte do espaço digital.
«Ver-me ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos não é algo com que a maioria das pessoas se identifique. Com o que se identificam é com a forma como nos sentimos connosco próprios, com aquilo de que falamos, pelo que passamos e com a forma como o partilhamos de maneira aberta e honesta», sublinhou.
Num desporto em que o corpo é ferramenta, palco e objeto de julgamento, Biles tenta agora usar a sua voz para lembrar que, por detrás das medalhas e dos filtros, há uma pessoa que também lida com dúvidas, falhas e decisões difíceis sobre o próprio corpo.






