O capitão do Juventude revive a madrugada de 29 de novembro de 2016, descreve memórias do voo, a dura recuperação e reclama maior reconhecimento pela superação
“Recordo tudo até ao momento do impacto”
Alan Ruschel, um dos seis sobreviventes do acidente da Chapecoense, deu uma entrevista ao jornal “A Marca”, onde recordou as imagens que lhe ficaram gravadas na memória.
“O piloto avisou que íamos a aterrizar, fizemos uma volta, outra volta, e nada… não aterrávamos. De repente, apagaram-se todas as luzes do avião, ficou tudo em silêncio”, contou o jogador.
Sobre o instante do choque, Ruschel foi directo: “Depois veio uma turbulência muito forte, soou o alarme dentro do avião… e aí já não me lembro de mais nada. Suponho que foi o momento do impacto.”
A mudança de lugar que salvou vidas
O relato inclui um pormenor que ele próprio considera decisivo. Tinha planeado viajar sozinho na parte traseira, mas acabou por sentar-se com o amigo Follmann.
“Passámos todo o voo conversando, ouvindo música, alguns a cantar samba… tudo muito tranquilo. O avião não tinha problema”, afirmou.
Ruschel sublinha o carácter fortuito da decisão e a coincidência que os juntou na mesma fila do avião, um detalhe que mais tarde assumiria um peso dramático.
Resgate, ferimentos e memórias que não voltam
Os primeiros socorros e o resgate trouxeram imagens que o próprio jogador não recupera na lembrança.
“Disseram-me que eu estava em estado de choque, que pedia para ligar ao meu pai, que entreguei os documentos e a aliança; não me lembro de nada disso”, afirmou.
Os relatos dos socorristas referiram frio intenso, dores nas costas e um objecto cravado no braço. “Tinha um pau cravado no braço, por isso tenho uma cicatriz enorme aí”, disse, lembrando as operações e as fracturas na coluna.
Diagnóstico pessimista, recuperação surpreendente
Um médico chegou a pensar que Ruschel não voltaria a andar. O próprio narrativo do jogador descreve o momento em que o clínico testou sensibilidade no pé: “Eu senti. E aí ele disse: ‘Vale, então há grande possibilidade de voltares a andar’.”
O progresso foi mais rápido do que o esperado e, em menos de duas semanas, Ruschel já estava de pé.
O choque de saber o que aconteceu
Ao acordar do coma, o jogador não tinha dimensão do desastre. “Perguntava pelos meus companheiros e ninguém me dizia nada”, recordou. A equipa médica preferiu aguardar pela intervenção psicológica para lhe revelar a tragédia, momento que Ruschel descreve como um bloqueio total.
Visitar os outros sobreviventes no hospital foi um momento de intensa emoção. “Fui ver o Neto e o Follmann, abraçá-los, agradecer a Deus por estarmos vivos”, contou, sublinhando o vínculo que mantém com os colegas.
Regresso ao futebol e momentos com o mundo
Menos de um ano depois, Ruschel voltou a jogar em partidas de homenagem, destacando o encontro no Camp Nou como um dos pontos altos.
“Jogar contra o Barcelona foi algo único. Joguei com o Messi, troquei a camisola, recebi elogios por ter voltado a jogar”, afirmou, recordando também a exibição frente à Roma que lhe devolveu confiança antes do regresso competitivo.
Entre reconhecimento e desilusões institucionais
Ruschel não esconde a amargura por episódios posteriores. Relatou ter ouvido que a sua permanência no clube foi por “pena” e descreveu situações em que jogadores pagaram viagens do próprio bolso para jogos de homenagem.
“Isso magoou-me”, confessou, justificando a decisão de procurar outros caminhos profissionais quando sentiu falta de apoio institucional.
Quando regressou à Chapecoense, conquistou títulos e liderou a equipa, mas mantém a crítica às decisões de gestão daquele período turbulento.
“Às vezes sinto que a gente normaliza demasiado a minha história”
O futebolista lamenta que a sua trajectória de sobrevivência e recuperação, apesar de exemplar, acabe por ser vista como óbvia pela opinião pública.
“Às vezes sinto que a gente normaliza demasiado a minha história. Voltei a andar, voltei a jogar, e as pessoas esquecem o que houve por trás”, afirmou, apelando a uma valorização maior dessa experiência de superação.
Presente e futuro: Juventude e portas abertas
Hoje capitão do Juventude, Ruschel mantém ligação afectiva à Chapecoense, mas assume que o seu futuro passa por aqui. Reconhece, contudo, que não fecha a porta a um eventual regresso ao clube que o formou.
“O Juventude é onde comecei e onde também consegui coisas grandes; há um processo de crescimento que me motiva”, concluiu.











