O Rali de Monte Carlo é, por natureza, um jogo de xadrez sobre o gelo, mas para Thierry Neuville, a edição de 2026 assemelhou-se mais a uma luta pela sobrevivência.
O piloto belga, que defendia o seu estatuto de campeão do mundo de WRC, terminou num modesto 5.º lugar, a uns impensáveis 10m29.8s do vencedor, Oliver Solberg.
Mas o que aconteceu ao “mestre do asfalto” para ficar tão longe da frente? A resposta divide-se entre a mecânica, a confiança e a superioridade técnica da concorrência.
1. A Crise de Confiança: “Lutando contra o carro”
Antes mesmo da primeira etapa, Thierry Neuville já tinha dado o alerta: não se sentia confortável com as atualizações do Hyundai i20 N Rally1 Hybrid. A falta de “feeling” — aquela ligação quase telepática entre piloto e máquina necessária para atacar — foi a sua maior barreira.
“Disse antes do evento que ainda não me sinto confiante no carro. Não tive controlo e perdi-o muitas vezes. O único objetivo era não perder uma roda… não foi nada divertido.”
Sem conseguir prever as reações do carro nos pneus Hankook, o belga foi forçado a adotar uma condução defensiva, perdendo segundos preciosos em cada quilómetro.
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— G!lles (@gillouchtl1) January 22, 2026
2. Um “Caminho de Espinhos” (e valas)
O azar também desempenhou o seu papel. O fim de semana foi uma sucessão de contratempos que minaram qualquer tentativa de recuperação:
- Shakedown: Uma falha no veio de transmissão e na suspensão deu o mote para o resto do rali.
- Etapa 9: Um deslize para uma vala custou 3 minutos.
- Etapa 12: Um pião em plena neve e gelo extremo.
- Etapa 15: Um furo que “roubou” mais 2 minutos e meio.
3. O Problema Técnico: A Instabilidade nos “Cuts”
A comparação com a Toyota foi cruel. Enquanto o GR Yaris de Oliver Solberg parecia “colado” ao chão, o Hyundai de Neuville mostrava-se instável em condições de aderência variável.
| Situação | Toyota GR Yaris | Hyundai i20 N |
| Bumps e Ressaltos | Suspensão absorve e mantém a linha. | Carro torna-se instável e imprevisível. |
| Cortes (Cuts) na Estrada | Estável e plano. | Sofre de snap oversteer (perda súbita de traseira). |
| Lama e Neve | Previsível. | “Sem controlo”, segundo Neuville. |
O colega de equipa, Adrien Fourmaux, confirmou o diagnóstico: quando a estrada é plana e limpa, o Hyundai é competitivo. Assim que o terreno fica “sujo” ou irregular, a Toyota foge.
4. Esperança no Horizonte: Suécia e Terra
Nem tudo são nuvens negras para o campeão belga. Neuville acredita que o problema é específico do asfalto irregular do Monte Carlo. O piloto sente-se muito mais otimista para o Rali da Suécia (neve pura) e para as provas de terra batida (gravel), onde o i20 N tem demonstrado maior equilíbrio.
“Sabemos que em terra nos sentimos geralmente muito mais confortáveis. Esperamos fazer um bom trabalho nos testes da Suécia para sermos mais rápidos do que no ano passado”, concluiu Neuville.
This is … pure art rally driving on snow 🥰❄️@HMSGOfficial @OfficialWRC @ACM_Media pic.twitter.com/sBLQv5CjpA
— Thierry Neuville (@thierryneuville) January 24, 2026







